Gênero: Drama
Direção: Gabriele Muccino
Roteiro: Steven Conrad
Produtores: Will Smith, Todd Black, Jason Blumenthal, James Lassiter, Steve Tisch
Elenco:Will Smith (Chris Gardner), Jaden Smith (Christopher Gardner Jr.), Thandie Newton (Linda Gardner), Brian Howe (Jay), Dan Castellaneta (Alan Frakesh), James Karen (Martin Frohm), Kurt Fuller (Walter Ribbon) e Takayo Fischer (Mrs. Chu)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia no Brasil: 02 de Fevereiro de 2007
Estreia Mundial: 15 de Dezembro de 2006
Duração: 117 minutos

Para qualquer dia aborrecido, para qualquer momento em que não haja nada para fazer, é um feel-good movie básico e de leve digestão.

“À Procura da Felicidade” é um filme clichê, mas esse não é nem de longe seu único pecado. Ele é previsível, melodramático, criativamente inócuo e tão satisfeito na sua zona de conforto que também pode ser chamado de covarde. Num trecho de dez minutos é possível extrair mais chavões motivacionais do que em todo um best-seller de auto-ajuda! Se eu quiser descer ao nível “Eufrazino Compra-Briga”, poderia argumentar que sua mensagem, por baixo da finíssima camada superficial, é moralmente perigosa. Mas que se dane: eu gosto desse filme. Não me desculparei tentando classificá-lo como um “guilty pleasure”, o que ele não é. Não consigo imaginar um humano com a mente sã ou o coração no devido lugar que ao menos não se simpatize com o que vê na tela, apesar de tantos apesares. O motivo é simples: “À Procura…” mexe com os instintos humanos muito além do que sua razão – sua pobre coitada e sempre secundária razão – pode refrear. É como um filhotinho de leão que, por um motivo qualquer (e pelo amor desta metáfora), acaba parando na porta de sua casa, como um bebê abandonado. Você sabe que não pode criá-lo. Sabe que ele crescerá e que 1) destruirá sua casa ou 2) fará de você uma refeição, e depois destruirá sua casa. Mas então você vê aquela linda carinha de filhote, aqueles olhinhos negros no meio daquela carinha peluda e diz: que se dane! Vou criar este filhotinho!

Pois eu, do mesmo modo, irei aprovar este filme.

É difícil, claro, especialmente para uma pessoa que se orgulha, no sentido mais nariz-empinado da palavra, de viver à base da razão e da lógica, de destrinchar cada filme da maneira mais objetiva possível, de escrever páginas e páginas não com o intuito de apenas criticar, mas de dar a melhor aula de cinema que um leigo poderia dar – independente da disposição do leitor. É difícil, muito difícil… mas é divertido e irônico, no mínimo. Pense em todos os termos-comuns que um filme motivacional no estilo “Sessão da Tarde” poderia ter: uma trilha sonora meio melancólica, meio alegre, de preferência tocada num piano, num violino ou num instrumento de percussão? Aqui tem. O herói descendo a níveis impossivelmente desesperadores para conseguir dar a volta por cima no último minuto (não no último ato, mas literalmente no último minuto)? Aqui tem também! Créditos narrativos em letras brancas anunciando o destino feliz do protagonista, antes de mais uma ceninha bonitinha para concluir o filme com algum ar filosófico e, enfim, partindo para a tela negra e os créditos rolantes? É claro que tem tudo isso! Considerando que eu dei quase a mesma nota para filmes de muito maior escopo e bem maior relevância (“Titanic”), porque eu deixaria passar essa obra que não é mais que um “rags-to-riches fell-good movie”? (É claro, como se a minha ou a opinião de qualquer um possuísse a mínima importância para os produtores ou para o Cinema num modo geral)

A reposta talvez repouse no fato de que este é um roteiro baseado em fatos reais e, até onde me consta, extremamente fiel a estes fatos. Os maiores erros retratados aqui são a idade cronológica do filho de Gardner (dois anos, ao invés dos cinco no filme) e os motivos por trás do prisão do personagem. Todo o resto – a luta desesperada pela sobrevivência, a vida nas ruas, a virada improvável e a vida bem-sucedida e milionária como um stockbroker – é verídico, e não mais outra história imbecil saída da cabeça de um roteirista desocupado e sem a menor gota de criatividade. O fato de o que vemos realmente aconteceu muda bastante o modo com que se avalia a obra, mas não nego que, mesmo se não soubéssemos de tal veracidade, ainda assim sentiríamos a mesma simpatia pelo personagem de Will Smith, sofreríamos com suas penúrias e exultaríamos com sua (improvável, se não impossível) conquista. Ainda que não seja excepcional – na verdade, nem mesmo acima da média – em nenhuma categoria analisada exceto a das atuações, esta produção claramente comercial segue a cartilha básica com sobriedade e competência, o que explica porque seria quase impossível ela não se sair bem nas bilheterias.

Aqui, acompanhamos a miraculosa ascensão de Chris Gardner (Will Smith) à “felicidade”, digamos assim. Um herói que nasceu negro, pobre e recebeu não mais educação do que a necessária para garantir-lhe um emprego de gari ou atendente do McDonald’s, Gardner arruína suas já poucas economias num negócio frustrado (e que o persegue por boa parte da película, servindo como um engraçado e angustiante sub-enredo) e, com isso, é abandonado com o filho único pela mulher. Após passar em frente a uma bolsa de valores e observar os milhões de investidores sempre felizes e sorridentes – possivelmente devido ao trabalho extremamente árduo e produtivo que prestaram à sociedade -, bem como os belos carrões que eles dirigem, Gardner decide mudar de vida e se tornar um stockbroker(ou, nas palavras do “Wall Street” de Oliver Stone: “um vendedor de papéis”). Sua persistência é tão anormal que ele é selecionado para o excepcionalmente difícil programa de admissão de uma empresa de investimentos, e daí até sua previsível vitória é uma ladeira ao inferno, com todos os problemas que você puder imaginar sendo jogados pela vida contra o personagem. É tal o nível de desgraças que já pela metade do filme nos perguntamos se conseguiríamos agüentar tanto suplício pelos nossos sonhos ou, no mínimo, nossa sobrevivência. Eu, pessoalmente, não. Provavelmente meteria uma bala na cabeça muito antes, mas nem sei se teria fibra para comprar uma arma no mercado negro.

Um problema bastante incômodo que eu tenho com o roteiro – além dos óbvios já citados – é que, embora a vida de Gardner na firma de investimentos seja uma parte obviamente importante, ela é pouquíssimo retratada em prol da relação pai-filho. É como se fosse apenas um pano de fundo. Quando vemos Gardner fechando vários acordos e progredindo na empresa, nos perguntamos sobre como ele conseguiu tantos contatos tão rapidamente – e com os tantos outros problemas a que o filme dá ênfase. Por exemplo, Gardner recebe no primeiro dia de trabalho um livro de estudos que deve tratar “como se fosse a Bíblia”. Entretanto, é possível contar nos dedos as cenas em que vemos o personagem estudando-a; o descompasso com sua situação pessoal e o drama da vida nas ruas é muito grande, tanto porque são essas as cenas que mexem com o coração do público.

Tecnicamente, o filme é aquele típico produto bonitinho e empacotadinho que qualquer diretor bem-alimentado e com meio neurônio poderia produzir. Cada shoté conhecido, cada movimento de câmera é saído direto dos manuais de cursos de cinema, cada nota da trilha sonora é indistinguível das de filmes do mesmo gênero… enfim, é um rolo de negativo que toma todo cuidado possível para evitar o risco. Há muitos adjetivos para filmes assim: *abre o dicionário* “esquecível”, “supérfluo”, “irrelevante”, “inútil”, “leviano”, “alienante”, “vicioso”, mas *fecha o dicionário* ficar nisso seria repetir o que foi dito no primeiro parágrafo. Se o filme se salva, é pela veracidade de sua história e pela potência de seus dois astros, Will e Jaden Smith. Ainda que o garotinho só esteja em tela pelo “nepotismo” paterno, é inegável que ele tem talento e que, mesmo se o pai resolvesse soltá-lo ao mundo agora, ele conseguiria se virar muito bem. De Will Smith nada precisa ser dito: poucos atores são tão comercialmente versáteis e carismáticos quanto ele.

Agora, se eu disse que o filme pode ser moralmente perigoso, isso é graças às interpretações que sua mensagem pode, intencionalmente ou não, suscitar. No fim, o que temos é o velho conto do “self-made man”: o mundo está aí para ser conquistado pelos que querem e basta uma quantidade imensa de trabalho para que qualquer um chegue ao topo. Essa é uma idéia simplista que encontrou força principalmente após a bizarra união dos ideais mais fanáticos da meritocracia com o igualitarismo e o libertarianismo. Você pode vê-las muito bem em qualquer livro de auto-ajuda. É perigoso observar a história de Gardner e tratá-la como uma regra, e não como a exceção. Primeiro, é uma questão meramente lógica: o topo não pode ser ocupado por todos; mesmo se todos fôssemos de repente gênios de 160 ou mais de QI, a única diferença que haveria seria a elevação dos padrões. No final, alguém tem que ficar em baixo para fazer o trabalho sujo. Poucos sempre controlarão muito e muitos sempre terão que se contentar com pouco, como o cínico Pareto já previra (e de maneira bem otimista) há mais de um século. Segundo: basta uma olhada mais atenta para perceber que o esforço próprio foi um fator pequeno se comparado à sorte do personagem-principal. Sorte? Num filme onde tudo de errado acontece com ele? Sim, sorte: o que seria se o atropelamento que ele sofreu tivesse sido fatal? O que seria se ele jamais tivesse recuperado as máquinas extraviadas? O que seria se a política da empresa não o permitisse entrar sem a vestimenta adequada, ou se o chefe para o qual ele faz a piada das “calças” fosse uma pessoa fria, metódica e sem senso de humor – ou estivesse num dia de cão? O que seria se ele tivesse trocado apenas um dígito do telefone que anotou mentalmente? O que seria dele? A sorte pode parecer a vilã, mas acaba como a principal heroína do dia.

(O investidor Warren Buffet disse certa vez que, nesta vida, tudo se resume à sorte – ainda que seja a sorte basilar de nascer no lugar certo e no tempo certo. Segundo ele, que utilidade teriam suas virtudes, convicções e habilidades intelectuais caso tivesse nascido em um país africano ou no tempo da pedra lascada?)

Terceiro: é bem estranho que o personagem tenha atingido o sucesso com um meio que hoje não goza, digamos assim, da melhor das reputações. “À Procura da Felicidade” foi lançado em 2006, dois anos antes dos mesmos stockbrokers descontrolados de Wall Street levarem o mundo à ruína. Não duvido que Gardner (provavelmente) seja um investidor íntegro, e não um mero especulador; um fundamentalista ao invés de um Gordon Gekko ou de um dos investidores do filme “Trabalho interno”. Mas isso não é sobre o homem; é sobre a mensagem: é triste que as principais formas de enriquecimento fácil e farto atualmente jazam não no trabalho industrial, mas na gritaria das bolsas de valores. Se os stockbrokerssão nossos novos Fords ou Carnegies, então é de se temer a integridade de nosso futuro.

Mas enfim, a mensagem está dada. Está à procura de uma felicidade efêmera e satisfatória? “À Procura da Felicidade” é ideal! Para qualquer dia aborrecido, para qualquer momento em que não haja nada para fazer, é um “feel-good movie” básico e de leve digestão. Sorrisos ao final da seção estarão garantidos e talvez as suas esperanças quanto à vida estarão renovadas. Não posso garantir que, como o personagem, você de fato chegue lá (as probabilidades todas gritam “não!”), mas quem sou eu para impedi-lo? No final, talvez eu seja apenas “a pessoa que não conseguiu o que queria, e que por isso diz às outras que elas também não conseguirão o que desejam.”

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