Esse é um novo quadro para o Cine Eterno que as circunstâncias me forçaram a criar, e ao qual espero não ter que recorrer com freqüência. Caros leitores (e, claro, caro chefe), é necessária uma certa dose de cara-de-pau para alguém se dizer crítico e cinéfilo e já ter passado três semanas sem assistir a um único filme (trechos no YouTube não contam, só pra deixar claro). Mas eu soucara-de-pau. É de família. Meu pai costuma se vangloriar que, toda vez quando faz a barba, cai serragem. Mas não é apenas pela maldita genética (e criação também!) que me desculpo; também é por matéria de prioridades. Não irei me alongar aqui em assuntos pessoais, que para vós são tão interessantes e relevantes quanto um urubu sendo sugado pela turbina de um Boeing 747 em plena decolagem… ou quanto ao último paredão do BBB (afinal, a edição deste ano ainda está no ar ou já acabou?).

Enfim, para resumir a história e espantar a autopiedade: não estou com o tempo nem com as condições (mental, financeira, organizacional, você escolhe) para assistir a filmes com o mesmo afinco dos dias idos, quanto mais escrever ostensivamente sobre cada um deles. Todavia, o acordo por mim firmado com o Cine Eterno (um calhamaço jurídico com 34 páginas cheias de entrelinhas, aliás), bem como a mais básica questão de honra, me impede de esquivar-me dos afazeres sem peso na consciência. Nunca deixei de contribuir para os meios a que sou subordinado por mais de duas semanas, e é um ritmo que não pretendo quebrar. (Não é bem algo altruísta. Minhas recaídas obsessivo-compulsivas são tão violentas que mesmo a mínima quebra de padrão já basta para me impor os mesmos remorsos de um pecador no Juízo Final. Mas esses são assuntos privados…).

Portanto, se não posso escrever completamente sobre uma coisa, escreverei incompletamente sobre várias. Abaixo se seguem os filmes e livros que apreciei nessas últimas semanas (quatro ou cinco, não me dei ao trabalho de contar), bem como os links de onde vocês os poderão encontrar. Espero que seja o suficiente para compensar minhas faltas. Se não for… bem, não é que vocês tenham muitas opções, hã?

He, he. Brincadeirinha.

Filmes

O Lado Bom da Vida (2012) – ♦♦♦♦

de David O. Russell

Confesso que os primeiros 25 a 30 minutos me foram repulsivos. Re-pul-si-vos. Eu fiquei pessoalmente ofendido pela narrativa que o filme dava indícios de tomar, com sua coleção de personagens falidos e o tratamento ainda mais depravado que o roteiro dá a eles. Não era comédia, por mais que (horrendamente) tentasse ser; tampouco era drama. Assistir a este primeiro ato foi como assistir a um grupo de valentões espancando um garoto com Síndrome de Down. E o pior: os garotões achando tudo bonito e querendo convencer os demais a acharem também.

Então, numa daquelas surpresas que tanto amo, o filme encontra seu ponto de apoio (cujo sobrenome é Lawrence) e finalmente se engaja numa trama que, apesar de previsível (muito!), é linda, acolhedora e aconchegante. É claro, ainda não engulo a teoria hollywoodiana de que duas pessoas tão dolorosamente atraentes como Lawrence e Cooper possam enfrentar problemas dessa magnitude na vida real, mas vale a suspensão da descrença. “O Lado Bom da Vida”, como o título brasileiro demonstra com acuidade, é feito para os freaks (ou os que se acham freaks) com uma visão sombria de mundo; uma grande terapia psiquiátrica que, ainda que esteja mentido, nos faz acreditar que há, sim, algum tipo de bondade inata no ser humano.

Psicopata Americano (2012) – ♦♦

de Mary Harron

Um filme com tudo para dar certo. É claro, você já viu as duas estrelas, então sabe que deu tudo errado. E nem se trata de uma “ruindade original”, não, não. É simplesmente mais um daqueles filmes que só se separam do amadorismo completo pelo orçamento mais generoso. A narrativa é conduzida de forma episódica, sem coerência nem encadeamento, dando a impressão de que o roteiro foi montado aos poucos, conforme as idéias surgiam na cabeça de quem os escrevia. E o que dizer de uma direção que consegue transformar o esforçadíssimo Christian Bale num personagem enlouquecedoramente chato?

Uma péssima transposição de obra literária que evidencia todos os pecados do subgênero.

Gênio Indomável (2012) – ♦♦♦♦♦

de Gus Van Sant

Isso! Isso! Isso!! Esse é o filme que “Uma Mente Brilhante” deveria ter sido! Em essência um “Silver Linings Playbook” menos excêntrico e mais intelectualizado (já que eu já falei sobre o filme, fica a comparação), é simplesmente uma das obras cujos defeitos só serão levados em conta por pessoas bastante frias. Eu os detectei, sim, e são o mais do mesmo: previsibilidade, sentimentalismo, simplismo acadêmico (especialmente no trato com a psicologia)…

Francamente? Ainda não sou frio o suficiente para retirar uma única estrela desta película magnífica.

 Livros

Colosso (2004, Editora Planeta) – ♦♦♦♦

de Niall Ferguson

Esse é o livro menos “acessível” de Ferguson, meu historiador contemporâneo favorito. É bem verdade que suas duas obras-primas, “Império” e “A Ascensão do Dinheiro”, já não eram lá uma muito fácil leitura. Dos acadêmicos “pop”, Ferguson é o que menos se preocupa em “expandir seu público-alvo”, portanto há muito tecnicismo e muito jorro exaustivo de informação em seus catataus literários. Mas “Colosso” se sobressai. Algumas partes só podem ser aturadas por algum ferrenho acadêmico apaixonado por política norte-americana. Não minto, pulei páginas!

Ignorando os eventuais distanciamentos do “público comum”, “Colosso” é tão polêmico quanto as duas já mencionadas obras, se não mais! Ferguson apresenta e defende a tese de que o mundo seria melhor, sim, numa ordem imperial – de preferência, uma ordem anglo-saxônica. Ele ataca o multiculturalismo como ilusões insustentáveis e demonstra, tanto pela retórica quanto pelos dados, que, para vários países, a independência não passa de uma maldição disfarçada de dádiva, é que é muito melhor, ao menos por algumas décadas, viver sob as asas protetoras uma nação mais forte e equilibrada.

Não recomendado para esquerdistas nem para pessoas politicamente corretas.

Infiel (2006,Companhia das Letras) – ♦♦♦♦♦

de Ayaan Hirsi Ali

O livro que deveria ser distribuído para todas as mulheres. Aproveitem agora, com o Dia das Mulheres há não muito passado! A história de Hirsi Ali é como um daqueles testemunhos de fé tão comuns nas igrejas evangélicas, só que com o indivíduo virando ateu no final e dedicando o resto da vida em nome do secularismo e do Império da Lei.

Nenhum resumo é melhor do que o trecho da contracapa: “É nesse mundo tribal, clânico e muçulmano que Ayaan nasce, cresce, tem o clitóris extirpado aos cinco anos, é chamada de prostituta e esmurrada pela mãe quando chega sua primeira menstruação e tem o crânio fraturado por um pregador do Alcorão que a obriga a decorar o texto sagrado em árabe, língua que não entende.” Como essa mulher conseguiu ascender da mais absoluta pobreza e escapar das garras de uma sociedade que se esqueceu de abandonar o medievalismo… bom, é claro que há muita sorte por trás, mas os detalhes não são menos que estarrecedores.

Mais do que uma obra de denúncia, “Infiel” possui uma das melhores prosas que já li em uma não-ficção. São impressionantes o domínio vocabular e as construções poéticas, o que torna uma grande pena a autora não considerar uma carreira literária firme.

Ah, e ela é hoje casada com Niall Fergunson. Isso é que é mulher!

Capital Erótico(2011, Editora Best Business) – ♦♦♦♦

de Catherine Hakim

Um livro que defende que beleza é, sim, fundamental. Fundamental, apenas? Não: prioritária. Hakim protesta pela inclusão do seu “Capital Erótico” entre os três Capitais Fundamentais (Econômico, Intelectual e Social) – tal qual um D’Artagnan entre os três mosqueteiros – e explica, com maestria, o porquê deste recurso tão essencial ter sido estigmatizado no Ocidente – em especial, o Ocidente cristão. Hakim é a feminista mais heterodoxa e, por paradoxal que seja (basta ler sua teoria para entender), a mais relevante do decrépito movimento nos dias de hoje.

Darwin vai às compras(2012, Editora Best Business) – ♦♦♦♦

de Geoffrey Miller

 
 

Às vezes foge pela tangente e se esquece do que estava falando, como um idoso que começa a contar uma história e se perde nos próprios devaneios. Noutras horas, é por demais excêntrico. Nada disso o impede de ser uma dos melhores e mais incisivas análises sobre a sociedade humana – tanto por que é uma análise sob a ótica da psicologia evolutiva, o cisne negro do ramo. Uma leitura perturbadora para quem já não está acostumado com a área, (tradicional formadora de pessimistas e cínico-depressivos), mas que nem por isso é menos obrigatória.

Costumo pensar que estudar biologia evolutiva e comportamental é como observar a Matrix: a realidade é tão mais feia que a maioria das pessoas preferirá seguir dormindo. Inclusive eu! Mas Morfeus estava certo, como sempre: uma vez que se toma a pílula azul, não há retorno.

As 100 Maiores Personalidades da História (2011, Editora Difel) – ♦♦♦♦

de Michael H. Hart

Se você costuma se irritar com aquelas “listas” e “tops” que todo site de cinema costuma publicar, mantenha-se longe deste volume! Seu intento é, nada mais nada menos, que enumerar as 100 personalidades mais influentes de todos os tempos.  Acha pouca polêmica? Maomé é o primeiro colocado, antes de Isaac Newton (2º) e Jesus Cristo (3º)!

Provocações à parte, este é um dos melhores e mais bem escritos almanaques em que pus as mãos nos últimos dois ou três anos: 100 personalidades, 100 mini-biografias para ler, aprender e se enriquecer culturalmente! Para qualquer leitor assíduo, difícil encontrar melhor barganha!

Odeio gente! (2009, Editora Best Seller) – ♦♦

de Jonathan Littman & Marc Hershon

No momento em que bati o olho no título, pensei: “Putz! Esse livro é pra mim!”. Tudo bem, nem tanto: eu não falo “putz”, apenas o uso na escrita. Ainda assim, seria muito mais proveitoso falar sobre a história e as raízes lingüísticas desta interjeição irreverente a falar sobre esta imensa porcaria celulósica. Por mais tentador que seja o título (e a arte da capa), não o compre! Não passa de um best sellerindistinguível dos outros tantos com títulos açucarados por aí; sua única função é, como sempre, massagear o ego do leitor com frases de efeito e historietas motivadoras, só que com uma espécie de psicologia inversa. Se esta perda de tempo em forma de livro possui alguma virtude que a torne merecedora de uma segunda estrelinha, ela é apenas um capítulo (menos de cinqüenta páginas), que consegue, por puro acidente, alavancar maior sobriedade. Fora isso, é um livro cujo papel só serve para avivar fogueiras.

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