“O débil, acovardado, indeciso e servil não conhece, nem pode conhecer o generoso impulso que guia aquele que confia em si mesmo, e cujo prazer não é de ter conseguido a vitória, se não de sentir capaz de conquistá-la.” William Shakespeare

Árdua é a tarefa de tornar-se um ser livre, no qual os cerimonialismos e protocolos impostos pela sociedade e pelo próprio ser não impedem a ação intuitiva do impulso. Os conflitos entre razão e instinto permeiam as obras artísticas humanas, mas a maioria esbarra nos limites do exagero tornando estas duas características tão singulares e antagônicas que é inverossímil acreditar que uma pessoa poderá ter as duas.

O argumento de “Além da Escuridão – Star Trek” torna o conflito Razão X Instinto principalmente numa discussão humana e palpável fugindo da abordagem recorrente do tema. As duas visões são tratadas como coexistentes na mente humana e seu embate é nada mais que natural, a grande questão não é mais elencar se a razão é melhor que o instinto ou vice-versa, mas tratar da sabedoria que esta por trás da escolha de um ou outro em determinado momento.

Durante a trama, o que é genial, o argumento mostra a transição do ideal exagerado do conflito entre estas duas características até a humanização deste embate. Isto só é possível devido ao papel que cada personagem possui nesta construção. O capitão da Nave Espacial James T. Kirk ( Chris Pine ) sempre foi a idealização do impulso, suas ações impensadas e reações desmedidas caracterizam esta personificação. O personagem sempre age de forma mais humana, seguindo seus anseios, angustias não importando-se com os impedimentos, justamente o contrário do 1° Oficial Spock (Zachary Quinto) da Nave Enterprise que segue rigidamente o protocolo seja qual for o pagamento por essa exigência. Spock chega a ser frigido em suas constatações e ações, o que é característica deste ser não humano.

A primeira sequência do filme defini claramente estes conceitos e os personagens que a representam, desta forma acompanhar a visão de ideal do filme se resume a trajetória dos personagens. Tudo flui normalmente até que um problema começa a se instaurar e para mudar o ideal deste conflito é necessário que este surja do interior para o exterior. A ameaça é John Harrison (Benedict Cumberbatch) ex-oficial da própria organização, sua função é justamente fazer a incerteza ser disseminada entre os personagens.

A segunda parte do longa é recheada de reviravoltas que lentamente vão abalando aqueles ideais antiquados. Quando novamente juntos Spock e Kirk vão ter que enfrentar pequenas situações onde um deverá considerar o regulamento e o outro o próprio instinto, estas situações se ampliam gradativamente durante o filme até percebermos em cenas de uma carga dramática espetacular que Spock age naturalmente por emoção, vingança e amizade enquanto Kirk se afugenta do temor e covardia e segue o protocolo pra salvar sua Família: A tripulação. Instinto e razão são características que vivem juntas, se complementam e não competem, assim como os dois grandes amigos Kirk e Spock.

O elenco também complementa toda esta grandiosidade, seja pela atuação sincera de Chris Pine, a atuação autoral de Zachary Quinto que têm a difícil tarefa de interpretar um personagem inexpressivo cheio de carga dramática. O brilhante Benedict Cumberbatch interpreta um vilão com uma autoridade admirável e uma segurança de dar inveja a muitos atores. É de fundamental importância ressaltar o potente trabalho dos coadjuvantes: Zoë Saldana, Anton Yelchin, Karl Urban e Simon Pegg.

O efeitos Especiais e a fotografia inspiradora e espacial de Daniel Mindel compõem visualmente este maravilhoso espetáculo. A cena onde a Nave Enterprise some entre as nuvens e depois reaparece me deixou imobilizado no cinema. Não há como falar de espetáculo sem citar a trilha de Michael Giacchino que é tão intensa e genial, pontuando cada segundo da trama com a melodia certa, numa combinação que que cresce junto com o filme. O compositor reverencia os temas antigos da série e inclui com novos trechos, aqueles que conhecem o compositor sabem do poder dramático de sua musica com faixas que vão de solos de piano numa Londres futurista até a orquestra imponente no espaço.

 Para conciliar tudo isso o trabalho do diretor J.J. Abrams é o instinto do processo e seu trabalho foi rigorosamente dentro do esperado. Resta ressaltar o primordial, a alma do filme, seu roteiro que foi genialmente escrito pelo trio: Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof. Resta agora esperar e torcer pela nova continuação.

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Crítico Literário

Fundador, Editor e proprietário do Cine Eterno e estudante de Engenharia Civil mas fascinado pela magia e poesia do cinema e da literatura. Acredita na potencialidade da arte como complemento do modo de vida humano, auxiliando, desvendando e por vezes mitificando diversos conceitos pessoais do homem. Como diria Chaplin " Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa se extrair a imaginação"