Escrita10
Enredo10
Personagens10
Capa10
Diagramação10
10Total
Reader Rating: (1 Vote)
9.1

“Olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava nele montado tinha o nome de Morte, e o inferno o estava seguindo. Foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, fome, mortandade e as feras da terra.” Apocalipse 5.8

O aspecto humano já foi dissecado sobre diversos pontos de vista, analisado sobre a influência da mente de grandes pensadores, seja por uma ótica dura como na visão de Saramago “Ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos de egoísmo” ou ainda em um tom poético e brando como nas palavras de Rousseau “A razão forma o ser humano, o sentimento o conduz”.

Há um ponto inegável a ser levantado, nossa mente pode alçar grandes voos mas infelizmente não vai sair da gaiola dos nossos próprios pensamentos. Seria esta a grande dificuldade de nos definirmos? A impossibilidade do distanciamento necessário para nossa avaliação?

A solução coerente e significativa seria encontrar um parceiro com similares capacidades humanas e extrema proximidade do nosso dia-a-dia, mas definitivamente algo não humano. Markus Zusak nos brinda com uma análise da nossa realidade que foge dos padrões recorrentes de avaliação. Trabalha com o misticismos do parceiro mais temido do ser humano e o coloca na linha de frente da análise de nossa alma. É difícil pensar que o personagem mais apropriado para nos dizer o que realmente somos é aquele que nos tira da viva condição humana.

Em A Menina que Roubava Livros vamos acompanhar pela consciência narrativa da Morte a trajetória de um exímio exemplar humano: Liesel Meminger. Uma pequena garota alemã que desde muito pequena convive com o significado da perda, e é encaminhada junto com o irmão para um lar adotivo em Molching onde terá a companhia de seus novos pais: Hans e Rosa Hubermann. Durante o caminho para molching ela sofre sua primeira grande perda: O irmão. Nesta introdução temos dois fatos extremamente importantes: ela encontra nossa narradora e rouba seu primeiro livro.

Esta grande história é construída em meio a miséria, saciedade, fé, fome, roubos, aprendizagens, bons corações e perdas. É um ensaio da vida humana sobre o olhar atento de nossa última companheira.

Os personagens são os piores ou melhores humanos que você pode conhecer, e as vezes até a mistura destes dois tipos. Não há necessidade de entender todos seus atos, e aliás, nem mesmo nossa narradora os compreende. Mas eles simplesmente acontecem, os fatos se desenrolam prejudicando alguns e beneficiando outros. Seja de forma ampla tratando de Hitler e os judeus, ou de pequenos atos como dar um pedaço de pão a um homem faminto podem mudar drasticamente o rumo da história. Desta forma Zusak confere poder aos seus personagens mesmo que a atmosfera da segunda guerra mundial transpareça a completa imobilidade humana.

Os personagens vão desgrudar das páginas e te encantar pela sua complexidade: seja o pequeno corredor e ladrão: Rudy Steiner, a misteriosa mulher do prefeito: Ilsa Helmann ou um Judeu tão internamente forte como externamente fraco: Max Vanderburg.

O livro é estruturalmente dividido em Prologo, dez partes intituladas pelo nome do livro ou história que está intimamente ligada aquele momento na vida daquelas pessoas de molching e um Epilogo. As notas da morte presentes em meio ao texto, são uma alternativa eficiente que não prejudicam a fluidez da leitura. Há ainda trechos ilustrados que apenas acrescentam a poeticidade brilhante que a obra cria durante o enredo.

A poeticidade da narrativa me encantou durante toda a obra. Seja pelo cuidado do escritor em transcender a gaiola da mente humana e escrever com o estima da Morte. Seja pela composição das palavras que ganham aspectos humanos em sua composição, elas caminham juntos com os personagens, se postam junto deles ou simplesmente caem ou voam de seus lábios. É claro que o enfoque dado a elas parte principalmente da questão que o livro aborda. O Poder da palavra. Seja ela declarada como forma de controlar uma nação a entrar numa guerra, de ter acesso a leitura e desfrutar das lembranças que o livro traz, de realizar a leitura de um livro que acalma pessoas refugiadas numa abrigo “antibombas”, de descrever o amor pelo outro, seja por palavrões ou palavras não ditas, de escrever sua própria história num livro para que outras pessoas a conheçam. Todas estas situações e muitas outras acontecem no enredo e conseguem demonstrar o apuro do autor para passar sua mensagem.

Vale ressaltar que a poeticidade aqui empregada é usual para amenizar e aprofundar o enredo absolutamente triste da trama. Não trata-se apenas de um folhetim de lagrimas, mas um romance onde cada frase traz um pensamento. E saiba que quando você chorar, não será porquê a morte veio visitar seu personagem preferido, ou porque simplesmente tudo pode um dia acabar mal. Mas porquê como tratado no início deste texto, a analise aqui apresentada sobre nós, eu e você, é verossímil, poética e devastadora.

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

About The Author

Crítico Literário

Fundador, Editor e proprietário do Cine Eterno e estudante de Engenharia Civil mas fascinado pela magia e poesia do cinema e da literatura. Acredita na potencialidade da arte como complemento do modo de vida humano, auxiliando, desvendando e por vezes mitificando diversos conceitos pessoais do homem. Como diria Chaplin " Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa se extrair a imaginação"