Direção10
Roteiro10
Elenco10
Trilha Sonora10
Fotografia10
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10.0

Direção: Anton Corbijn

Roteiro: Andrew Bovell

Elenco: Phillip Seymour Hoffman, William Dafoe, Rachel McAdams, Nina Hoss, Robin Wright

Estreia no Brasil: 9 de outubro de 2014

Gênero: Drama/Suspense 

Duração: 122 minutos

Ian Fleming popularizou o gênero de espionagem graças ao seu personagem clássico James Bond, saído da bipolarização entre soviéticos e norte-americanos, procurando se readaptar ao mundo moderno, porém continuando com sua visão exaltada e charmosa da espionagem, com vilões caricatos, veículos luxuosos, armas multi-uso e mulheres excitantes. Fugindo desses padrões estereotipados, temos o escritor e ex-espião do serviço secreto inglês John Le Carré, com obras apresentando uma visão do mundo da espionagem que desconstroem a padronizada por Bond, mostrando ser um serviço pra lá de burocrático e metódico, tendo em seus agentes conflitos ideológicos, éticos e até morais devido a função atribuída, pelos “interesses” de sua nação. Seguindo essa lógica particular, temos o recém chegado aos cinemas “O Homem Mais Procurado”, uma obra de espionagem inteligente e intrigante, talvez um dos filmes mais grandiosos deste ano, se não um dos mais geniais.

Le Carré se atualiza ao “mundo moderno” e troca os embates entre soviéticos/comunistas e americanos/capitalistas pelo conflito do momento: a chamada “guerra ao terror”, deixando de lado visões maniqueístas de mundo, para dissertar sobre a construção dessa nova polarização construída devido aos interesses de uma nação perante outra, tendo subterfúgio a missão banal em tornar o mundo mais seguro. Uma questão cheia de controversas refletidas por seus dúbios e cínicos personagens, igualmente em conflitos sobre o ofício exercício, porém servindo de meros burocratas para executar a missão sob o preceito primitivo de proteção global contra um inimigo forjado. Deixando claro como se fala sobre a responsabilidade de proteger, pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger, sendo debates assim propostos ao longo de sua duração.

Na trama, após os atentados do 11 de setembro, a paranoia em relação ao terrorismo se tornou pandêmica, tendo uma forte aversão por parte das sociedades ocidentais ao islamismo. Em Novo Hamburgo, o agente Gunther (Phillip Seymour Hoffman) é responsável por investir a sociedade muçulmana da cidade, tendo como alvo um dito pacifista, porém com altas suspeitas de financiar grupos fundamentalistas. Quando um jovem checheno chega à cidade buscando melhores condições, o serviço secreto americano cai em cima acreditando nele ser um terrorista, porém Gunther vê nele como uma forma de alcançar o verdadeiro “terrorista” e enfim reconquistar prestígio perdido. Em meio a tantos embates, inicia-se uma tremenda tese em relação à segurança global nesse século e alguns de seus amplos aspectos.

O roteiro capta toda a essência de Le Carré, não só na constituição de seu universo singular, mas também na abertura de debates fundamentais e pertinentes, como a burocratização do homem o tornando mero seguidor das mais banais ordens, a demonização do Estado Islâmico devido ao fundamentalismo inconsequente e ainda a frieza por parte das instituições que, teoricamente, deveriam prezar pela segurança da população, porém usam de métodos medievais para conquistar seus objetivos. É uma argumentação inteligente junto aos seus grandes diálogos, porém não é pretensiosa sendo fácil de aderir, não tendo grandes complexidades. A direção de Anton Corbijn é minuciosa e bem detalhista, consegue proporcionar embates racionais como ninguém, mas permitindo momentos de tensão e ação no momento certo, ainda com um cinismo cômico, tornando o expectador participante de toda tensão exposta na tela.

Completando a direção, a fotografia nada mais é que um passaporte para embarcar nos dilemas vividos por seus personagens, servindo de linguagem primordial a passar uma agonizante melancolia e tristeza. Já a trilha sonora é capaz de envolver o público e deixá-lo com coração batendo, sendo um artifício fundamental na construção do suspense crescente, sobretudo nos momentos de puro ápice. A edição tem como papel notável tornar o longa bem amarrado e digerível, o livrando de qualquer confusão ou tédio, permitindo uma imersão pura e genuína de um excepcional thriller de suspense.

No campo das performances, dificilmente não dá para aclamar Phillip Seymour Hoffman, num dos momentos mais distintos de sua carreira, apresentando sentimento e expressão de forma contidas, porém extremamente genuínas. Lamentavelmente o ator nos deixa esse ano vítima de overdose, porém nos presenteia em um de seus melhores momentos dignos de aplausos, um trabalho de grandes proporcionais no qual poucos atores conseguiriam transpor cada conflito e inconformidade do ofício. Nina Hoss, relevada pelo alemão “Barbara”, surpreende e reafirma-se como uma atriz européia extremamente promissora, com uma performance destruidora de qualquer estereótipo em relação a personagens femininas e espionagem, além de acrescentar humanidade no meio, graças ao seu olhar angelical, ao mesmo tempo que sagacidade e charme, uma artista merecedora de nossa atenção desde já. Temos ainda William Dafoe saindo do automático e relembrando o quão promissor pode ser junto a uma boa direção e roteiro e pra finalizar a americana Robin Wright, mostrando como a série “House of Cards” tem feito bem a ela, personificando em sua personagem nada mais que a sordidez e volatilidade de uma nação a fim de conquistar seus interesses, independente de quem irá atropelar, uma participação marcante e digna de reconhecimento.

Mais que a oportunidade de ver um dos últimos trabalhos de Seymour Hoffman e perceber o vácuo deixado pela sua prematura morte, “O Homem Mais Procurado” serve de thriller moderno refletindo as conflituosas e dúbias questões do terrorismo e segurança nacional, mostrando que o maior anseio, seja de Le Carré, de seus personagens ou do próprio expectador, em encontrar um propósito convincente para justificar o constante morticínio de uma nação perante a outra, usando os mais variados pretextos. É uma questão não respondida, mas deixada para ser pensada, sobretudo nos rumos que a humanidade caminha, após martirizar negros, judeus, russos, agora muçulmanos, resta saber qual etnia embarcará nos interesses das nações dominantes e iniciará o próximo conflito. A conferir.

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About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".