Faleceu nessa quinta-feira o diretor Mike Nichols, aos 83 anos, vítima de infarto. Mike deixa como legado algum dos filmes mais marcantes da história do cinema, um dos realizadores mais competentes em retratar a alma humana. Para ele, nossa humilde homenagem e eterna lembrança.

Por Eduardo Gomes e Junior Cândido 

1) Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

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Pode até não parecer, mas o clássico Quem Tem Medo de Virginia Woolf? marcou a estreia de Nichols no cinema com uma obra que esbanja maturidade. Adaptado da peça homônima de Edward Albee, o filme é uma das grandes lavagens de roupa suja já vista nas telas. Inquietante, Nichols já dava um passo em meados dos anos 60 em cutucar as feridas do estilo de vida americano ao reunir dois casais para colocar em cheque seus segredos mais obscuros. Reunião entre o casal Elizabeth Taylor e Richard Burton, o filme angariou nada menos que 5 Oscars, inclusive os prêmios de Melhor Filme e Melhor Atriz para Taylor.

2) A Primeira Noite de um Homem (1967)


Mike Nichols conquistou nada menos que o Oscar de melhor diretor por esta nobre e despretensiosa pérola do cinema. Benjamin (Dustin Hoffman), recém formado em direito, retorna ao lar com inúmeras incertezas sobre seu futuro, em dado momento, ele conhece a amiga de meia-idade dos seus pais, a Mrs Robinson (Anne Bancroft), sendo seduzido, agravando ainda mais suas dúvidas quanto a sua vida, sobretudo após se apaixonar pela filha da cinquentona (Katharine Ross).
Em um filme tão simples, Mike Nichols consegue sintetizar todos os anseios da juventude no processo de amadurecimento e nas escolhas decisivas a se tomar, estabelecendo o futuro. Além da envolvente direção, construindo alguma das cenas mais marcantes da sétima arte, contamos com um show de interpretação por parte do elenco, seja pela beleza natural sexy de Anne Bancroft, desconstruindo qualquer estereótipo de mulher fatal ou pela inocência quase que castra de Dustin Hoffman. Sem dúvidas, um filme imortal e constantemente atual.

3) Lembranças de Hollywood (1990)


Livremente inspirado na vida da atriz Carrie Fincher, a eterna princesa Leia da franquia Star Wars, narra a vida de uma atriz viciada (Meryl Streep) obrigada a viver sob a custódia da mãe (Shirley Maclaine) até conseguir finalizar um filme pelo qual foi contratada, porém a relação das duas é altamente conflituosa, sobretudo pela mãe também já ter sido alcoólatra e tratar a filha ainda como ingênua criança.
Relação de mãe e filha é posta em xeque, sendo uma abordagem livre de clichês e deveras inventiva, retratando como as projeções dos pais tornam danosas na construção dos filhos que tentam trilhar seu próprio caminho, mesmo que, inevitavelmente, tenham que decepcionar seus progenitores. Cômico e humano, serve ainda de um bom panorama dos bastidores de Hollywood, contando com atuações soberbas de Meryl Streep e Shirley Maclaine e ainda pontas divertidas de outros grandes atores, como Annete Bening.

4) Angels in America (2003)

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Depois de um período sem grande trabalhos de destaque (não com a mesma projeção dos seus dois primeiro filmes), Nichols voltou em cena com a adaptação da premiada Angels in America, peça homônima do escritor Tony Kushner, numa minissérie para a HBO. Transposto com um rigor que pouco se vê até na própria industria do cinema ianque, Angels in America é um conjunto espetacularmente funcional entre roteiro, direção e elenco, como também um dos grandes tratados audiovisuais sobre a década de 80. Um conto que usa das mazelas do descobrimento da AIDS para criar uma parábola sobre a desconstrução do ideal norte-americano na era reaganiana.

5) Closer – Perto Demais (2004)

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Aposto que se lançado em tempos de censura mais amenas, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? teria uma tensão sexual muito próxima ao do penúltimo filme de Nichols. Se no clássico da década de 60 o diretor se debruçava entre os fantasmas e a decadência do ‘american way of life’, em Closer, (mais uma) adaptação da peça homônima de Patrick Marber, o diretor vai até Londres acompanhar as desventuras de 4 personagens que se cruzam numa rede de sexo e sentimentos mal resolvidos. A entrega do elenco é impressionante e o filme tem sem dúvida uma visão forte e muito particular sobre o amor nos dias de hoje.