Direção9
Roteiro8
Elenco9
Fotografia10
Sonografia8
Efeitos especiais10
9Nota final
Reader Rating: (2 Votes)
5.6

 

 

Título original: Snowpiercer

Direção: Joong-ho Bong

Roteiro: Kelly Masterson e Joon-ho Bong

Elenco: Chris Evans, Song Kang-ho, Tilda Swinton, Jamie Bell, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Go Ah-sung, John Hurt e Ed Harris

Produção: Park Chan Wook e Steven Nam

Estreia mundial: 1 de Agosto de 2013

Estreia no Brasil: 30 de Julho de 2015

Gênero: Ação, drama, ficção científica

Duração: 126 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

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No final deste mês estreia nos cinemas brasileiros – e com considerável atraso em relação ao lançamento ao redor do mundo – O Expresso do Amanhã, ação protagonizada por Chris Evans, ator que está em alta após ter se consagrado como o Capitão América nos filmes da Marvel – o que, sem dúvidas, é um bom motivo para atrair o público aos cinemas. A ideia do filme é convidativa, uma vez que transporta o espectador a uma realidade alternativa na qual o mundo já não é mais como o conhecemos: após um experimento feito para por um fim no aquecimento global falhar tragicamente e congelar toda a atmosfera, os últimos sobreviventes estão presos em um trem sem destino final. Se ele parar, todos morrem. Simples assim.

Quando eu digo que houve um “considerável atraso” na chegada desse filme às terras tupiniquins não estou exagerando. A exibição estará em cartaz a partir do próximo dia 30, mas já havia estreado mundialmente há quase dois anos, mais precisamente no dia 1 de agosto de 2013.

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O clima quase que pós-apocalíptico é a chave para manter o drama da história, e digo “quase” porque nesse tipo de filme sempre está presente o clichê de um possível recomeço. Mas não digo isso de forma pejorativa, destacando como um defeito. Não. Essa insistente ideia chega a ser inevitável no roteiro desse filme, uma vez que a esperança funciona como combustível para mover a humanidade e, consequentemente, para garantir o comprometimento dos personagens com a causa em comum que os uniu.

A simples ideia de apenas sobreviver ao fim do mundo em um trem sem rumo já é uma premissa boa o suficiente para vingar, mas a história não se limita a isso e, buscando originalidade, vai além do puro entretenimento. Basicamente, dentro do trem há uma divisão de classes através das locomotivas. Nos primeiros vagões, estão os mais ricos, e nos últimos os mais pobres. Sim, o poder aquisitivo das populações é decrescente, à medida que você anda através dos vagões. Mas, obviamente, as pessoas não podem sair de suas respectivas habitações. O rico não se encontra com o pobre, nem o pobre com o rico. É claro que esta separação é desafiada no desenvolvimento do enredo, e o choque quando há o encontro de diferentes classes é inevitavelmente impactante.

Na verdade, trata-se de uma metáfora para as diferenças sociais que vivemos na realidade de hoje. Estamos sujeitos a sofrer a mesma colisão quando não há estabilidade entre as classes em um território que pode ser uma cidade, estado ou país – ou quem sabe o embate pode repercutir mundialmente, eclodindo numa grande guerra. É como ter o planeta resumido em um trem. Assim como previsto pelo sociólogo Karl Marx, evidentemente há uma luta de classes se formando quando há o opressor e o oprimido. No filme, há um diálogo simples mas muito profundo a respeito dessa teoria. Quando Curtis (personagem de Chris Evans) é questionado por Wilford(interpretado por Ed Harris)Mason (brilhantemente interpretada por Tilda Swinton), uma ferrenha defensora da atual organização, sobre o motivo da rebelião para mudar a estrutura social, ela recebee uma curiosa resposta. Aqui a transcrição:

      “Wilford: Curtis, everyone has their preordained position, and everyone is in their place except you.

      Curtis: That’s what people in the best place say to the people in the worst place.”

(Em tradução livre:

       Wilford: Curtis, todo mundo tem sua posição pré estabelecida, e todo mundo está em seu lugar, exceto você.

        Curtis: Isso é o que pessoas que estão no melhor lugar dizem para quem está no pior lugar.)

A frase é simples, mas leva à reflexão. Mason (atuação brilhante de Tilda Swinton), uma espécie de ministra no trem, também merece destaque com seu discurso a respeito do chapéu pertencer à cabeça e o sapato aos pés – teoria destruída pelos “revoltosos” dos vagões do fundo. Mais uma vez, uma forte crítica político-social em primeiro plano.

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Em seguida, há o inevitável confronto em que os menos afortunados buscam seu espaço, invadindo os vagões posteriores com objetivo de conseguir o controle do veículo todo na sala de máquinas, localizada juntamente ao primeiro vagão, A potente máquina é conduzida pelo seu endeusado criador, Wilford. Pelos ricos, ele é visto como salvador, o profeta que evitou o fim da raça humana e dá suporte aos sobreviventes. Mas quem sofre com a falta do básico para a sobrevivência sabe que ele é o verdadeiro vilão da história.

No caminho para comandar o trem, Curtis se surpreende com as mais inacreditáveis bizarrices possíveis que estão à sua frente. Quando descobre que sua alimentação provém dos mais nojentos insetos, por exemplo, há mais uma metáfora para a nossa realidade: agrotóxicos, antioxidantes… quem não tem maior poder aquisitivo acaba tendo que se contentar com alimentos de procedência e qualidade questionáveis. A distopia vivida no filme, apesar de criticada por muitos pelo seu surrealismo, na verdade não está tão distante da realidade vivida através dos tempos, nas quais sempre há injustiças, enquanto um tem muito, o outro tem pouco, embora ocasionalmente o poder mude de lado.

E essa é a grande sacada do filme. Através de um futuro distópico, O Expresso do Amanhã expõe exatamente os mesmos problemas que vivenciamos hoje. A diferença está no fato de que podemos enxergar tudo de longe, sem estar inserido nesse contexto vivenciado. Assim, é possível uma análise mais objetiva e clara a respeito da segregação.

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Curiosamente, esta obra é uma adaptação do HQ francês chamado ‘Le Transperceneige’. Infelizmente, há furos grotescos no roteiro que roubam a verossimilhança da história. Erros na lógica do filme são percebidos até pelo espectador menos atento. Viver 18 anos em um trem sem nenhuma manutenção externa já é uma ideia absurda por si mesma, e obviamente que a falta de realismo só se agrava com o desenvolvimento da trama.

É claro que devo ressaltar que trata-se de uma obra puramente ficcional, sem compromisso com a retratação fiel da nossa realidade. O objetivo aqui é analisar artisticamente os problemas da sociedade atual, e isso o filme cumpre com maestria, uma vez que desenvolve uma atmosfera densa, que revela muitos significados e dá margem a várias possíveis interpretações. Filosófico, esse filme está longe de servir apenas como entretenimento, muito pelo contrário: a bela direção de Joon-ho Bong nos leva a pensar e encarar nossos próprios conflitos. “So it is”.

TRAILER LEGENDADO:

 

 

 

About The Author

Minha paixão por filmes começou desde muito cedo. Me lembro da época em que meus pais me presenteavam com VHS quando eu ainda era bem pequeno e de quando eu costumava ir todo fim de semana à locadora para alugar um DVD. Hoje costumo ver filmes sempre que aparece a oportunidade porque sei que mais que puro entretenimento, o cinema tem importância na retratação artística da realidade, e tem o poder de enriquecer a cultura de uma sociedade.