Um filme depende de muitos fatores para ser considerado bom. Um roteiro coeso, uma direção firme, uma fotografia caprichada, direção de arte criativa e muito mais. Contudo, há outro detalhe que é de extrema importância e que alguns roteiristas ignoram. O vilão.

Quando eu digo vilão, não estou me referindo necessariamente a um filme de super-heróis. Estou me referindo ao antagonista principal que fará toda a lambança que o herói deverá consertar e/ou impedir. O problema é que não importa o quão incrível e poderoso seja o herói. Se o vilão for ruim, o filme não terá graça. Tudo porque o herói não encontrou nenhum desafio pela frente.

Uma das maiores dificuldades de se criar um vilão incrível talvez seja arrumar um ator, ou atriz, incrível para interpretá-lo. É uma questão de detalhes, mas muitos detalhes. A voz, a maneira de andar, o jeito de olhar e até a maneira de agir é levado em conta. Não pode ser nada muito exagerado e nem mal feito. Se o ator falhar, por mais incrível que o vilão seja no papel, ele pode ser uma piada quando for interpretado.

Vamos usar exemplos agora? Sim!

Na saga Harry Potter o vilão principal era um bruxo chamado Lord Voldemort. Por que ele é tão bom? Tanto nos livros quanto nos filmes ele é descrito como um dos bruxos mais poderosos do mundo, mas não mais que o Dumbledore. Além de ser poderoso, ele tem uma motivação forte. Ele possui um exército só de gente ruim e toda essa gente tem medo dele.

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O Voldemort é um psicopata poderosíssimo que quer a todo custo impor a soberania dos bruxos, desde que sejam sangue puros (filho de pai e mãe bruxos). O Ralph Fiennes (que é o mestre dos vilões) dá o seu toque de insanidade ao bruxo. No final, toda essa ameaça que ele traz faz o espectador duvidar da vitória do Harry Potter (o herói) e cria o suspense “será que ele vai mesmo conseguir?”.

No que se diz respeito a vilões ruins, podemos encaixar o filme O Espetacular Homem Aranha: A Ameaça de Electro. O diretor foi corajoso em encaixar dois vilões, mas foi irresponsável em errar nos dois. O Electro, interpretado pelo Jamie Foxx, era um zé-ninguém que de uma forma inusitada ganha super poderes e começa a odiar o Homem Aranha. A motivação dele? O Homem Aranha não o reconheceu após a transformação… E isso lá é motivo para alguém querer matar o outro? Neste filme é.

O Jamie Foxx tem uma interpretação fraca e nos traz um vilão patético que em momento algum traz uma ameaça real. Quando eu digo ameaça, quero dizer daquelas que você duvide que o herói vá vencer. Como se não fosse suficiente errar em um, o diretor Mark Webb erra em outro. O Duende Verde agora é o filho do Norman Osborn e está ridículo. Não há nem como comparar com o vilão do primeiro filme da franquia do Sam Raimi. Esse é um exemplo de dois vilões que não valem um.

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No filme O Silêncio dos Inocentes, o vilão é um psiquiatra canibal que não bate bem da cabeça. Esse filme também conta com dois vilões, mas, diferente do Espetacular Homem Aranha, esses são bem elaborados e apresentam uma ameaça real. Você não sabe qual será o próximo passo deles. Então tudo é possível!

Quando você traz um vilão implacável, imprevisível e poderoso, o herói tem um desafio muito maior pela frente. Se ele errar, tudo vai por água abaixo. Por exemplo, no filme Batman: O Cavalheiro das Trevas, o Batman erra ao mandar o Coringa para a cadeia sem os devidos cuidados. No final, isso era exatamente o que o Coringa queria. O nosso herói foi surpreendido. Isso faz o espectador se perguntar se ele é páreo para o vilão.

Criar um bom vilão é provar que o herói é incrível o suficiente para derrotá-lo. Se o vilão é fraco, o herói acaba se tornando poderoso demais e tira a graça da trama, pois você sabe que no final ele vai sair vitorioso. Um exemplo disso é a franquia Busca Implacável, com o Liam Neeson. Ele é um ex-agente do governo que sai batendo em todo mundo e no final acha a filha dele. Em algum momento do filme você duvidou que ele realmente não fosse achar a filha dele?

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Um bom vilão faz a trama ter motivo para acontecer. Um motivo bom, claro. Querer matar um cara porque ele não te reconheceu não é um motivo bom. Um bom motivo é você querer pegar um cara que está com dois milhões de dólares que não o pertence. Refiro-me ao filme Onde os Fracos não Têm Vez, dos irmãos Coen. O vilão aqui é o Anton Chigurh, interpretado brilhantemente por Javier Bardem. Ele quer a todo custo a maleta contendo os dois milhões de dólares e mata qualquer um que entre em seu caminho.

Mas o que faz o Anton Chigurh ser um vilão tão bom? Ele é um cara que acredita no mérito. O Llewelyn, o “mocinho” da história, não merece os dois milhões de dólares. Sendo assim, deve morrer por isso. Contudo, o Chigurh é mais complexo do que parece. Ele segue valores próprios. E em vários momentos é descrito como louco. O mais importante é que ele segue os requisitos fundamentais de um bom vilão. É implacável, imprevisível, poderoso e tem um motivo que justifique seus atos.

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Talvez você se pergunte, “então é errado usar mais de um vilão?”. Não. Não é errado. Porém… Cada personagem possui uma história que o faz estar onde ele está. Não é diferente com o vilão. O filme pode ter cinco vilões, mas a história dos cinco deve ter começo, meio e fim. Se não a trama fica sem sentido. Como ocorreu em Homem Aranha 3.

Uma história funciona assim: cada personagem possui uma história que se une com a de outros personagens e então ocorre algo que os tira de sua zona de conforto e a trama começa. Se um dia você ver alguém dizendo que o personagem tal é superficial, ele quer dizer que não há história por trás dele. E logo, não dá pra um antagonista ser implacável, imprevisível e poderoso se não houver uma história.

No geral, se o roteirista decidir que a história terá um vilão, este vilão deve ser tão bom quanto o herói, deve ter uma história explicando quem ele é, por que faz isso, por que ele está atrás do herói e o que ele quer conquistar determinada coisa. Geralmente eles falam que o vilão é louco e isso resolve tudo. Afinal, do que um louco não é capaz?

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Tenha em mente que se preocupar apenas com o herói e deixar seu inimigo de lado é tolice. O mocinho já terá toda a torcida a seu favor. Por que não dar um oponente digno a ele? Se isso acontecer, a vitória dele será ainda mais triunfal. Você acha que os filmes do Rocky fariam tanto sucesso se ele vencesse só caras fracos? Não. Por isso que Rocky V é ruim. Porque seu “vilão” é ruim e não apresenta nenhum ameaça ao Rocky.

Como eu já disse, há vários fatores que fazem uma história ser boa. Vilões como o Darth Vader, Hannibal Lecter, Lord Voldemort etc., fazem a história ficar mais empolgante. Agora você saberá porque os filmes com vilões carismáticos são os melhores. E lembre-se, nunca deixe um roteirista te enganar dizendo que um vilão é realmente perigoso quando na verdade não é.

 

 

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Crítico de Cinema

Escritor que sofre de amnésia, cronista, músico, fã de cinema, futuro roteirista, amante de todo tipo de arte e... o que eu ia falar? Oh, droga.