Nada melhor do que reunir os amigos no fim de semana, assistir e dar boas risadas com um filme de comédia. Então o filme começa e as risadas que é bom nada… Com muito custo, e reclamações, vocês terminam de vê-lo. É aí que todos falam em uníssono “Que droga de filme! ”. É bem possível que você já tenha passado por uma situação assim. Até porque muitos filmes de comédia cometem o pior crime que um filme assim pode cometer: não ser engraçado.

Existem filmes de comédias que são deploráveis, e há filmes de outros gêneros que, mesmo com poucas cenas de humor, conseguem ser super divertidos. Isso acontece porque o roteirista tomou decisões muito simples; criar uma trama que possibilita o humor usando personagens excêntricos, atrapalhados, ingênuos etc., e deixando o humor acontecer naturalmente. Em outras palavras, deixando a história se contar.

Não se pode falar sobre cinema sem citar filmes, então vamos lá!

No filme “Golpe Baixo”, é um reboot de um filme do mesmo nome. Foi lançado em 2005 e protagonizado pelo Adam Sandler. Um jogador de futebol americano é preso, e quando chega no presídio o diretor o obriga a treinar os outros presos para jogar contra os guardas. Crewe (Sandler) a princípio ele se nega, mas depois vê isso como uma boa forma de se vingar do abuso de poder dos outros guardas.

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Com essa premissa, o longa poderia se tornar o típico filme americano de superação, que provaria que a união vence tudo e assim em diante. Há um pouco disso no filme, mas o humor predomina. É engraçado você ver aqueles brutamontes (os presos) tentando se unir para formar um time. Eles acabam se atrapalhando e consequentemente fica engraçado. Mas não só isso, em um filme de comédia é muito importante expor bem os personagens para que o público saiba o que esperar dele. Por exemplo, lembra daquele garoto na sua sala que sempre fazia uma piadinha engraçada? Todos esperavam a piada dele. Todos queriam rir da piada dele. Então ele inesperadamente fazia a piada e todos caíam na gargalhada. Isso só foi possível porque ele viu o momento oportuno e fez a piada.

Tirando a patética atuação do Burt Reynolds, que protagonizou o primeiro filme, este longa é muitíssimo engraçado. É uma pena que ele sofreu injustiça graças a fama de “mau comediante” que assombra o Adam Sandler. Em Golpe Baixo, você vê as situações sendo criadas naturalmente e do nada vem a piada, e é por isso que você ri.

Já no filme Vingadores: Era de Ultron, acontece o contrário do que eu disse. A trama não possibilita o humor. Quem diabos faz piadinhas em meio a uma guerra? Mas não é impossível encaixar uma ou outra piada aqui e ali. Os personagens não contribuem para as situações engraçadas. Eles são guerreiros, soldados, espiões, assassinos e não bobalhões! Qual o resultado disso? Duas horas de piadas absurdamente forçadas e sem graça.

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Neste filme a cena mal começava e as pessoas comentavam “Lá vem a piada”. Cinco minutos depois a piada acontecia. Era possível ouvir uma piada aqui e ali, mas nada empolgante. Chegou a ser irritante essa enxurrada de piadas forçadas e sem graça. Quer jogar humor? Ótimo, mas pense nisso antes de escrever o roteiro.

Há um tipo de humor que costuma-se chamar de “humor corporal”. Isso acontece quando o personagem faz alguma atrapalhada e cai, derruba algo, bate em alguém etc. O Grande Hotel Budapeste, escrito e dirigido por Wes Anderson, usa muito bem esse tipo de humor. Muitos o consideram um humor bobão. Talvez até seja, mas se bem encaixado funciona. Mas como eu disse, depende de outros fatores. Um dos méritos desse filme é que o diretor sabe muito bem onde encaixar o humor. Desta forma, o filme fica com um tom bem leve, típico de aventuras, e deixa as pessoas mais interessadas na trama.

Um filme que falha miseravelmente nisso é O Pequenino, com Marlon e Shawn Wayns. O filme tem várias cenas de algo acertando os “países baixos” dos personagens. Isso deixou de ser engraçado lá na década de noventa. Enfim, há inúmeros erros neste filme. Sem falar na trama arrastada…

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A fórmula mágica para um filme de comédia ser engraçado é fazer com que a piada pegue o espectador desprevenido. Assim como um filme de terror faz para dar susto nas pessoas. Isso é outro problema que comentarei futuramente, mas voltando ao foco. A história tem que acontecer. Tem que ter um início, meio e fim. O humor faz parte da história, mas muitos roteiristas fazem a história fazer parte do humor. O que é um erro imperdoável!

No filme, “Up – Altas Aventuras”, Fredricksen decide cumprir a promessa que fez a esposa e decide levar sua casa até o Paraíso das Cachoeiras. O que ele não esperava é que o escoteiro Russel fosse com ele. Eles acabam não concluindo o caminho e se veem obrigados a completa-lo a pé. Nisso eles descobrem que um velho explorador está atrás de um pássaro raro que agora está junto com Russel e Fredricksen.

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Pronto. A história é essa. Mas os roteiristas foram inteligentes ao colocar um personagem mal humorado ao lado de um personagem falante e hiperativo. Isso cria situações de humor. No mais, o filme consegue ser divertido e muito engraçado. O humor é leve e acontece naturalmente. É difícil não rir com este filme.

Quando você se dedica para criar uma boa história e com bons personagens, o humor fica natural. Mas há roteiristas que se preocupam tanto em encaixar piadas em seus filmes, que acaba virando algo maçante. Como aconteceu no último filme dos Vingadores.

Quando você ver um filme de comédia ruim, não culpe só o(a) coitado(a) do(a) ator(riz). O culpado pode ser o roteirista que não tem vergonha na cara e escreve um roteiro ridículo; pode ser o diretor que não se importa em ver o seu nome em uma produção de baixa qualidade ou do produtor que exige um filme idiota assim. Pode ser até da Globo Filmes… ops, quer dizer, pode ser até da distribuidora que insiste em um filme ruim. E é também do público, que ainda aceita ser enganado e pagar para ver filmes mal feitos e sem graça nenhuma.

 

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Crítico de Cinema

Escritor que sofre de amnésia, cronista, músico, fã de cinema, futuro roteirista, amante de todo tipo de arte e... o que eu ia falar? Oh, droga.