Direção5.5
Roteiro5
Elenco5
Fotografia7
Trilha Sonora7.5
6Total
Reader Rating: (1 Vote)
7.6

Filmado em locações longínquas, com uma produção bastante desafiadora, as imagens filmadas rigorosamente em luz natural, o elenco sofrendo o diabo nas filmagens… Enfim, ” O Regresso”, novo longa do mexicano recém ganhador do Oscar, Alejandro G. Inarritu, desde o início chamou a atenção e deixou no ar certa desconfiança e curiosidade, definitivamente não foi um projeto simples, tão pouco tenta beirar ao básico, é um projeto de épico, neo-western, metido a cult, cheio de passagens experimentais, que tenta demonstrar uma profundidade questionável. O que devemos falar primeiro, antes de adentrar nos deméritos e méritos do filme, é o fato de tanto furdúncio ter sido gerado devido ao astro Leonardo Dicaprio enfim figurar na bolsa de apostas como favorito ao seu primeiro Oscar de ator, tal fato faz sentido pela obra girar entorno do encalce de Dicaprio, do ator/astro, porém não do personagem principal em si. Ou seja, o maior problema de “The Revenant”, no original, é ele soar um projeto egocêntrico, meio megalomaníaco, feito para afagar o ego do diretor que clama por notoriedade e relevância cinematográfica e de um ator que igualmente exige ovações. Seu personagem, o  real explorador e colonizador Hugh Glass de fato parece ser uma figura instigante, mas é o caso no qual o ator sobressai o personagem, fazendo-o desaparecer. Vemos o Leonardo Dicaprio passando por todos os percalços, sem personalidade ou essência própria Glass, algo que incomoda desde o início da projeção. O ator consegue ter um desempenho empenhado, contudo não proporciona uma entrega física e emocional mais madura, algo essencial para o papel e que o personagem necessariamente precisa, ao contrário das caretas que ele faz. Não posso ser injusto e desconsiderar as qualidades técnicas, visuais e até cinematográficas que de fato soam bastante líricas, contudo ao término do longa se dá a impressão rápida de que vimos um filme menos do que de fato ele tenta ser, sua contemplação passa a ser vazia e tola.

O enredo foca numa companhia de caça e exploração no Oeste americano, em busca principalmente de peles de animais, as coisas começam a desandar quando os índios norte-americanos começam a atacar os colonos, forçando eles a fugir. Em meio disso,  o explorador conhecedor daquele território, Hugh Glass (Dicaprio), antigo amante de uma índia que resultou um filho mestiço, é atacado por um urso, ficando à beira da morte, até ser enfim abandonado por seu parceiro de trabalho (Tom Hardy), acreditando que ele não irá durar muito tempo após ser deixado para trás. Porém, eis que a sede de vingança desperta forças para além da compreensão, fazendo Hugh iniciar sua odisseia em busca de vingança, enfim ele tenta regressar de onde fora abandonado. É uma sinopse simples, um enredo bastante primário, porém elaborado de forma prepotente e pretensiosa, há uma preocupação em fazer o espectador adentrar nas reflexões quase na marra, seja pelas “visões” corriqueiras do protagonista ou pela fotografia auto-indulgente que inúmeras vezes lembra o público da seriedade do projeto. O roteiro tenta captar a essência da brutalidade do Homem, a ganância que cega, a apropriação de terras, o desrespeito cultural, é um filme que tenta abordar as diferentes fases do ser humano, sobretudo pelo fato dos americanos – e demais povos, em geral- terem dizimado os povos indígenas de forma brutal, chega a ser banal inclusive a abordagem do filme a este delicado ponto, retratando os povos ancestrais como seres vingativos e sanguinários, algo meio forçado, uma desculpa para aumentar as dificuldades enfrentadas pelos personagens. Carece de um sentimento próprio que une, ao mesmo tempo que separe, os personagens, suas ligações são tão banais que não convencem.

A direção de Inarritu carece de objetivo, além, é claro, da vontade de mostrar quão bom diretor o mexicano pode ser, como os planos são bem filmados, como ele ultrapassa o limite do possível para fazer real Cinema. É uma ambição tão escancarada que decepciona por ser um filme tão insosso, cansativo e fora de ritmo. Se ele tivesse ao menos usado tanta energia em um projeto mais instigante, explorado seus personagens de forma mais inspirada, eu não duvido que teríamos um filme de verdade. Não quero desmerecer o fato do diretor ter passado por dificuldades na produção, de conseguir fazer um trabalho corajoso, esforçado, que flerta com referências cinematográficas e porque não dizer tenta introduzir algo de genuíno, mas no final das contas é tudo bastante superficial, raso. É como uma fotografia muito bem tirada, porém com uma beleza meramente básica, não há o que extrair daquilo ali, apenas segundos de apreciação, sendo esquecido em seguida. O elenco se resume ao Dicaprio clamando pelo Oscar que deve vencer, Tom Hardy parece estar interpretando uma caricatura dele mesmo, com um incompreensível sotaque, a trilha sonora composta separadamente por Ryuchi Sakamoto e Alva Noto dá nuances claros de onde um começou o trabalho e o outro finalizou. A trilha é interessante, bastante narrativa, mas também nada tão notável assim, pode parecer que estou sendo rígido, contudo é um filme tão cheio de si, com um ego próprio tão inflado que chega a perturbar.

Portanto, “O Regresso” não é um épico que entra no imediatismo dos clássicos contemporâneos, é uma obra tão particular que surpreende ter conquistado público, crítica e bilheteria, pois parece ser mais um filme pessoal de Inarritu e Dicaprio, cada um brigando para ver quem é mais incrível, o ator ou o diretor, o monstro ou a criatura. No final das contas, o projeto é o retrato daquilo que ele crítica, é a contemplação da ambição que cega, ultrapassa limites, quebra barreiras, cria um caos para afagar uma vontade pessoal própria. Chega a ser irônico, é um Cinema bastante pessoal, apresenta sim alguma coisa, mas no final das contas não passa de ser algo vazio, um abismo entre o que tenta ser e o que de fato é. Um filme que passa a ser mais falado não por suas qualidades, sim por suas pretensões que, felizmente ou não, passam longe de serem atingidas. Assim como o recente e igualmente megalomaníaco “Os 8 Odiados”, podia ser realmente uma obra cinematográfica, reinventora dos épicos faroestes, contudo não passa de uma bobagem com pedigree. Quem perde é o cinema, afinal.

TRAILER LEGENDADO

About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".