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Roteiro
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Fotografia
Trilha Sonora
4.0Nota Final
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Westworld (1ª Temporda)

(HBO, 2016-)

Criada por: Jonathan Nolan & Lisa Joy

Direção: Jonathan Nolan, Richard J. Lewis, Neil Marshall, Vincenzo Natali, Jonny Campbell, Frederick E. O. Toye, Stephen Williams, Michelle MacLaren

Roteiro: Jonathan Nolan, Lisa Joy, Daniel T. Thomsen, Ed Brubaker, Halley Gross, Charles You, Dan Dietz, Katherine Lingerfelter

Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Ben Barnes, Ingrid Bolsø Berdal, Clifton Collins Jr., Luke Hemsworth, Sidse Babett Knudsen, Simon Quarterman, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Jimmi Simpson, Tessa Thompson, Shannon Woodward, Ed Harris, Anthony Hopkins

Número de Episódios: 10 episódios

Data de Exibição: 02 de Outubro a 04 de Dezembro de 2016

Westworld 02

O texto contém spoilers.

Westworld revelou como os últimos anos me acostumaram mal, ou me deixei acostumar, pois simplesmente não me encontro mais na capacidade de acompanhar séries semanalmente. Com a criação de Jonathan Nolan foi assim, e uma revisão com todos os episódios em sequência se fez muito mais rica do que a primeira vez. Cada detalhe que deixei passar despercebido, cada dissolução de teoria que se fazia algo a menos para me preocupar. Mas notem como é algo bastante subjetivo.

Tanto que na revisão da série o que mais me chamou atenção foram justamente as atuações. Tanto Anthony Hopkins, em quem eu já estava desacreditado como ator, como Jeffrey Wright, ator que admiro, apresentaram nuances em seus trabalhos que se fizeram um dos pontos altos da temporada, delineando de maneira espetacular o que os roteiros da série já lhes davam com bastante complexidade ali inserida.

Aliás, dos grandes momentos da série acredito que o mais crucial dentre todos é um diálogo no oitavo episódio, Trace Decay, após uma das grandes revelações da temporada. Num diálogo entre os personagens dos dois atores que citei acima, temos talvez a maior revelação ainda na série, mas não somente sobre Westworld, e sobre a vida em si.

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É interessante notar como Jonathan Nolan é um fã ávido da narrativa clássica, por isso mesmo muitos temas são circulares dentro da história. Óbvio, todos os hosts em Westworld atestam isso. Contudo, se vai além. Não que a chave esteja no diálogo entre os dois personagens, mas ela sintetiza algo que o Ford de Anthony Hopkins já tinha nos dito antes.

A frieza do personagem pode ser vista com a devida clareza na sequência de abertura do quinto episódio, e a maneira como nós, de forma ainda mais fria, podemos comparar não só os personagens da ficção, mas os da nossa própria vida, com o cachorro que Ford relata em sua história. De certa maneira uma série de repetições, o cachorro corria em círculos sem nunca concretizar seu objetivo. Mas uma vez que o fez, percebeu, por assim dizer, que o círculo na verdade era sua vida.

A maior virtude de Westworld acaba sendo, portanto, estes devaneios nos quais nos perdemos uma vez que imersos dentro dos círculos narrativos dos hosts, que tem seu papel nas nossas vidas semelhantes àquele com os que adentram em seu mundo completamente fictício da série.

Porque Westworld tem essa capacidade de desvia a atenção, as próprias teorias que corriam internet afora episódio após episódio eram provas disso. O anseio por suas resoluções era mais uma parte dos nossos círculos narrativos. Mais um detalhe em meio a imensidão apresentada.

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É difícil admitir que Westworld tenha apresentado em sua temporada uma boa direção, a bem da verdade que na maior parte do tempo ela foi regular. A série carece de uma estética mais unificada, uma identidade visual mais sua, algo que possa adotar como uma marca registrada ao invés de simplesmente se ater ao usual.

Até porque o nível de sua produção está muito acima do que se costuma ver na televisão. A escala épica se faz similar aos arremedos da HBO com Game of Thrones, no caso aqui, porém, é fácil se perder apreciando como todo aquele mundo parece funcionar, com os extras em segundo plano sempre exercendo alguma função prática, ainda que irrelevante às tramas principais, mas que complementam de maneira fundamental a ideia desse mundo todo.

Mas aí voltamos aos problemas com a direção, porque falta requinte, falta uma certa sofisticação que a HBO dá a possibilidade de suas séries obterem. O maior descaso, e prova disso, é quando Frederick E.O. Toye assina a direção de alguns episódios. Velho conhecido de Nolan das épocas de Person of Interest, logo na sequência de abertura de um dos seus episódios temos um erro de continuidade, recorrência mais que comum na recém-concluída séria da CBS.

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Essa falta de alinhamento é um elemento que parece ter frustrado muitos na resolução de uma das mais intrigantes tramas, ou a quase resolução, afinal, a Maeve de Thandie Newton foi um dos questionamentos que terminou de maneira a deixar ainda mais dúvidas.

Uma livre escolha ou programada? Eis aí algo que me consome muito mais que a nova narrativa de Ford. Não pelo simples paradoxo de uma escolha livre se tornar, também, uma escolha programada. Afinal, toda incitação na intenção de uma alteração é, em si, uma tomada de escolha pré-programada, não?

Portanto, eis que mais uma vez um círculo vicioso se faz presente. Permeado, porém, pela teoria da consciência bicameral, algo que fala muito sobre a dualidade que se faz presente por toda esta primeira temporada de Westworld.

Porque ela não somente é a temática central em se tratando da mente dos hosts presentes no parque, mas no que tem a força de representar, ela vai além, no sentido de que delineia ainda mais a narrativa de Westworld no todo. Revela assim, portanto, questionamentos morais que sempre foram tão queridos aos irmãos Nolan.

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Por isso mesmo a maior reviravolta é Westworld entregar o trabalho mais brilhante de Anthony Hopkins em anos. De um vilão que beirava estereótipos, seu personagem sofreu um desenvolvimento tal com os rumos finais da temporada que, até mesmo com seus deslizes, o elevaram a questionamentos morais que se mostram de uma complexidade imensa.

“Você não pode brincar de Deus sem estar familiarizado com o Diabo” é uma frase que, ao final da temporada de Westworld, soa muito mais compreensível, bem menos como uma representação de vilania. Justamente porque a verdade é aquela que nos ensinam Bernard, Maeve, Dolores, Teddy, Clementine e todos os outros hosts.

A dor tem um papel muito mais fundamental em nossas vidas do que geralmente fazemos questão de admitir. Muitas vezes ela surge até como uma percepção de algum erro que cometemos, mesmo estando fora de nosso alcance qualquer ato para evitar tais erros. Não à toa que se pode perceber aqui outra referência a ideologia de Ford.

Pode doer, pode ser um erro, pode ser insatisfatória a percepção de algo sobre o qual vivemos em recusa. Westworld paga as devidas homenagens ao trabalho original de Michael Crichton, a trilha sonora que o diga, mas se aprofunda ainda mais nos conceitos filosóficos apresentados lá nos idos de 70. Assim, também assumindo um ritmo tão semelhante como a do calmo filme onde ninguém tinha alma, Westworld explora com maestria como pode ser doloroso encarar nossa própria realidade de narrativas circulares, onde o especial reside mesmo no fato de encará-las como deve ser.

About The Author

Especialista em Cinema, Tecnólogo em Produção Multimídia e Técnico de Produção em Áudio e Vídeo. Cinéfilo desde que se conhece por gente, teve o sonho frustrado de ser cineasta e, agora, abre mão da vida social para se dedicar às séries e filmes.