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Os Estados Unidos passam por plena ebulição social, política e econômica desde a crise que assolou o país iniciada em 2008. Muitos estudiosos políticos associam a recente chegada do republicano Donald Trump ao posto de presidente da nação decorrente da estafa social coletiva desenvolvida pela depressão culminante da crise.  Nesse cenário nos deparamos com “A Qualquer Custo”, um longa-metragem que sintetiza muito sobre a era pré-Trump e o que pode vir a ser a era Trump de fato. É curioso como a obra consegue ser tão poderosa e inteligente usando de uma despretensão absurda, graças ao roteiro do grande Taylor Sheridan –roteirista do ótimo Sicário- que consegue construir uma narrativa sólida tendo como base o clichê de embate entre “vilão x mocinho”, por baixo disso há um grande estudo sobre a América e o sonho americano, destoando a falência deste – mais uma justificativa pra eleição do milionário.

A estória é simplíssima: Os irmãos Tanner (Ben Foster) e Toby (Chris Pine) estão prestes a perder a sua fazenda, decidem então invadir e roubar filiais de bancos em cidades pequenas no interior do Estado do Texas. Eles elaboram um cronograma de três cidades, com desfecho em Nevada para enfim aproveitar o melhor do capitalismo pode proporcionar. Tudo parece estar dando certo, até que entra em cena o Policial Ranger Marcus (Jeff Bridges), prestes a se aposentar compulsoriamente, vê essa como sua chance de mostrar-se ainda útil para a comunidade. Num cenário de caçada do justiceiro aos bandidos, se encena um filme potente sobre a fragilidade do sonho americano, que fora demolido após a crise de 2008. Toby representa justamente o trabalhador médio crente no trabalho árduo é gerador de riquezas, consequentemente de sucesso familiar. Após se ver em plena recessão, se vê humilhado por não poder ser mais aquela representação patriarcal padronizada, decai ao desespero de adentrar a criminalidade.  Seu irmão, por sua vez, representa o ser decadente que enlouqueceu após tantas frustrações de um sonho falido, vê a criminalidade não como uma questão moral, sim social: um grito de justiça aqueles que o detrataram a si e sua família – no caso os bancos.  Por fim, temos Marcus, alguém quer representa a perpetuação do velho, depara a crise mas não a reconhece, quer se mostrar ainda necessário.

O soberbo roteiro de Taylor Sheridan consegue ir além na dissecação do sonho americano, destoa também a fragilidade social da sociedade americana, representada aqui pelo Texas, ainda que estejam desiludidos, não o reconhecem. Beiram ao fascismo na repressão da expressão da plena inconformidade dos irmãos que visam sobreviver em meio ao caos. Foi essa sociedade que tenta se iludir, manter esse sonho falido e o conservadorismo opressor que elegeram Donald Trump à presidência da república. Inclusive podemos chegar a fácil conclusão que o personagem de Jeff Bridges seria, seguramente, um cabo eleitoral do hoje presidente.

O trabalho de David Mackenzie frente a direção do longa é de uma precisão sem igual, difícil um diretor pegar um roteiro escrito por outra pessoa e aborda-lo de forma tão minuciosa, construindo um faroeste político e social contemporâneo, em um ano tão difícil para os Estados Unidos e pro mundo, no geral. Consegue fazer uma aventura dúbia, cheia de nuances onde é fácil confundir quem são de fato os mocinhos e os bandidos, uma ação que consegue proporcionar entretenimento, na melhor forma possível. O seu elenco está afinado, Chris Pine tem uma atuação minimalista, ainda que esteja bem é ofuscado pelo grande Jeff Bridges, numa performance de carreira e pelo gigantesco e subestimado Ben Foster, num tom elétrico e afiado.

“A Qualquer Custo” não foi ovacionado atoa, é hoje seguramente uma aposta certa para indicações ao Oscar e chego a ousar dizer que seria merecedor de certas ovações –um prêmio de ator coadjuvante seria merecidíssmo. Fazia tempo que um filme assumidamente americano não fazia uma reflexão social tão complexa da América como este, o mais instigante, no entanto, é como o debate gerado pelo filme consegue ser adaptado a várias sociedades, inclusive a brasileira, que hoje vive uma igual crise política, econômica e social e se depara com figurões de direita ascendendo ao poder decorrente da falência da sociedade em crer não meramente no “Sonho”, mas no Estado. E quando isso acontece, todos nós perdemos muito. E quem ganha, por sua vez, são Donald’s Trump’s e companhia. Portanto, a obra de Mackenzie e Sheridan não deixa de ser um aviso para a sociedades e um pedido de reflexão para o espectador. Imperdível.

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About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".