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Um dos maiores traumas da História norte-americana foi a prematura morte do presidente John F. Kennedy, vítima de um brutal assassinato durante um comício em Dallas, Texas, no momento pré-eleitoral em 1964. O então presidente foi alvejado com duas balas certeiras, falecendo imediatamente. Muito se conspira e discute até hoje sobre as razões que levaram ao ato contra Kennedy, tema corriqueiro no cinema, já visto em diferentes óticas possíveis, no entanto numa em especial, vista agora pelas mãos de um diretor chileno, Pablo Larrain, que decide colocar sob perspectiva a então primeira dama Jacqueline Kennedy, durante momentos intercalados: seu cotidiano na Casa Branca, sua reação no dia exato do atentado e os preparativos para o grandioso cortejo fúnebre no qual ficou marcado para a memória nacional do país.

“O povo adora um conto de fadas” diz Jackie em dado momento, é justamente essa condição na qual o longa assume, da desconstrução da ilusão da figura que os Kennedy’s representavam para a tragédia generalizada na qual findou. O retrato no qual Larrain e Noah Oppenheim constroem da ex-primeira dama controverso, por coloca-la no pedestal a qual a maioria das pessoas normalmente a colocam, para depois faze-la despencar, mostrando seus retratos mais humanos que vão muito além do luto do sofrimento pela perda do marido. Jackie sofre por ver ela mesmo se exaurindo, sua impotência em lidar com o fato de que deixará o título de primeira dama do país e seu medo de ver o legado da família Kennedy pouco significativo para a história. Ai que o longa propõe uma profundidade subjetiva, quase experimental, ao nos apresentar toda organização agonizante de Jacqueline em preparar o funeral de seu marido, desejando algo faraônico, grandioso, para marcar a história. Na realidade é um anseio em deixar um legado a figura do esposo quanto presidente e humano, na falta de um legado próprio que esta mulher não conseguiu construir, para além dos esteriótipos clássicos e datados no qual esposas de poderosos devem representar sofisticação, elegância e educação. Inclusive, em dado momento, nos deparamos com uma loja de grife com vários manequins inspirados nos modelitos dela, o que poderia ser um grande legado até por conta da vaidade da personagem, soa como algo amargo de tempos nos quais havia a expectativa de mudança.

Contudo, o problema principal se dá na composição da personagem principal, ao qual Natalie Portman se preocupa minuciosamente em reproduzir seus trejeitos e tiques, mas carece em dar personalismo presente no argumento do roteirista. Percebo ser um dos casos nos quais é mais importante se parecer mais com a figura histórica representada do que interpreta-la. Isso acaba tornando “Jackie” uma experiência muito mais vasta do que sua personagem, ironicamente. Deixo claro: não é que Natalie Portman faça um trabalho ruim, muito pelo contrário, entretanto ela não constrói uma Jacqueline diferente daquela que conhecemos, ela desenvolve uma profundidade compatível com o projeto, deixando sua protagonista frágil, quase que redundante, vazia em sua essência, porém complexa em sua premissa.

É um projeto interessante, sem dúvidas, me parece que sofreu bastante pré-conceito e boicote vindouro dos americanos que não devem ter gostado de um chileno ter desconstruído um simbolo nacional. Larrain se reafirma, depois do excepcional Neruda, como um dos cineastas mais autorais dos últimos tempos, contanto estórias de forma pouco convencional, usando as mais variadas elipses e parábolas para construir uma narrativa original. Sua direção é sobressalente e visa sufocar sua protagonista quadro a quadro, sem dar a ela algum descanso. Sob sua lentes ferozes, ele tenta mostrar a fútil Jackie, a raivosa Jackie, a humana Jackie, a vazia Jackie a vasta Jackie. Jackie, Jackie, Jackie, seu nome repetido em overdose, na forma na qual parece que todos tentam conforta-la, compreender seu luto, sua vaidade, seu objetivo. E Larrain deixa as respostas por nossa conta, pois a história as deixou todas em aberto, simplesmente por não te-las perguntado no momento que as deveria.

E no final das contas, talvez a sra. Kennedy esteja certa: Podem vir outros presidentes, outras primeiras damas, mas não vai existir outra Camelot. 

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About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".