Direção
Roteiro
Elenco
Fotografia
Trilha Sonora
3.5Total
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O diretor indiano M. Night Shyamalan ganhou notoriedade com “O Sexto Sentido (1999)”, filme caracterizado revolucionário no âmbito da construção narrativa dos suspenses, trabalhando naquilo que é exposto mas não notado ao longo do filme. Shyamalan chegou a ser indicado ao Oscar de melhor direção e foi tido como um diretor extremamente promissor, entretanto de lá pra cá muita coisa desandou: os projetos do diretor receberam ampla rejeição da crítica especializada e de parte do público, sobretudo seus últimos dois projetos que foram considerados aberrações indefensáveis (ainda que haja gente que rejeite repudiar O Último Mestre do Ar e Depois da Terra). Eis que recentemente o indiano parece ter retomado o controle criativo e do bom senso, fez um retorno tímido ao cinema autoral com “A Visita (2014)” e agora vem com “Fragmentado”, um filme de orçamento médio mas que rendeu não só a redenção dele com a crítica como também uma das maiores bilheterias de sua carreira e ainda para filmes do gênero nos Estados Unidos.

Não foi por acaso que Split – título original – recebeu a alcunha de ser “O melhor filme de Shyamalan desde O Sexto Sentido”, pode ser uma reação um tanto exagerada, porém é o filme do diretor mais comercial desde “Corpo Fechado (2000)”, onde ele tenta juntar uma certa grandeza argumentativa com subversão do subgênero dos filmes de quadrinhos.  Se Corpo Fechado fora um filme sobre super-heróis e seu lugar no mundo, Fragmentado é um filme sobre vilões e sua aceitação em ser aquilo na qual foram destinados a serem. Tamanhas ponderações estão contidas diretamente no sub-texto, pois em nenhum momento o indiano assume o filme como ele de fato é, mesmo estando exposto ali – o vício do plost twist continua.

A trama se baseia no rapto de três garotas após um aniversário de uma delas, o sequestrador é meticuloso e enigmático, as prende numa espécie de porão, sem nenhum momento expor o que está por vir, contudo boa coisa pressupomos não ser. Em dado momento o mesmo retorna com um jeito, vestimenta e voz diferente, ele soa como mulher, mesmo estando num corpo nítido de homem. As meninas mantém apavoradas, com exceção de Casey (Anya Taylor-Joy, mesma de A Bruxa), tida como a esquisita da escola, ela opta por observar com firmeza os acontecimentos para então pensar num plano para fuga. Enquanto elas se mantém trancadas, o sequestrador (James McAvoy) revela ser portador de uma síndrome característica por portar múltiplas personalidades, tendo três dessas aliadas entre si em prol de uma causa sinistra. As demais 20 personalidades tentam pedir socorro para a Doutora Fletcher (Betty Buckley), psicóloga responsável pelo estudo da síndrome e crendo na super-capacidade dos portadores em serem superiores aos comuns humanos justamente por poderem modificar a química e física do corpo com a força do pensamento. Em dado momento, vigésima quarta personalidade do rapaz vai tentando ser despertada, deixando claro o destino na qual as jovens estão fadadas.

O longa de Shyamalan acerta no uso do cinema de gênero para construir sua narrativa ofegante, novamente mexendo com o espectador com o invisível, por mais visível que esteja em tela. O problema é que ele falha em dar uma profundidade ao seu vilão maior do que o personagem aguenta, demérito nenhum para a performance de James McAvoy que está simplesmente soberbo, contudo seu personagem carece de uma argumentação mais focada em desenvolve-lo como figura orgânica do que científica. Inclusive toda a narrativa psicológica até soa interessante, porém em dado momento é completamente descartada, soando até ofensivo a forma que a personagem da Dra. Flecher é desperdiçada assim, visto que era tida como a figura materna do personagem. Já a personagem da Anya Taylor-Joy apresenta tudo que um típico personagem do diretor tem: insegurança, bizarrice e uma ligação familiar desgastante, a tornando um prato cheio para alguém como o seu raptor.

Se “Fragmentado” é o retorno de Shyamalan ao cinema eu não sei, no entanto é um filme que termina deixando um gostinho de quero mais, quem ver vai entender, principalmente se tiver assistido Corpo Fechado e compreender as intenções do diretor. E diante de projetos tão decepcionantes como os últimos do diretor, um filme que termina com essa sensação é um ótimo ponto de partida a um diretor no qual parece querer fazer por onde para ter uma nova chance, resta nós permitimos e irmos, sem pré- conceitos.

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About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".