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“Conflitos não são por ódio, conflitos são por causa de dores” é com essa frase proferida pela lendária atriz Olivia De Havilland (Catherina Zeta-Jones) que inicia-se a nova antologia criada por Ryan Murphy (mesmo das American Horror Story e American Crime Story e de Glee): Feud: Bette and Joan, abordando a rivalidade histórica entre as atrizes Joan Crawford (Jessica Lange) e Bette Davis (Susan Sarandon), duas titãs do cinema clássico que eventualmente participaram apenas de uma produção juntas: “O Que Teria Acontecido com Baby Jane? (1962)”. A minissérie inicia no anseio de Crawford retornar sua carreira após anos de ostracismo, vendo uma oportunidade no livro homônimo ao filme de ressurgir, porém, percebe a necessidade de ter ao seu lado alguém de mesma magnitude, eis que Bette Davis embarca no projeto dirigido por Robert Aldrich (Alfred Molina) e financiado, com muitas dúvidas, por Jack Warner (Stanley Tucci) da Warner Brothers.

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Apesar do pontapé inicial da obra ser justamente o conflito entre as duas indescritíveis atrizes, a primeira temporada de Feud se aproveita de temáticas até banais, em alguns momentos, para explorar vícios de Hollywood, aos quais se perpetuam até hoje. Por exemplo, o fato de tanto Crawford e Davis, atrizes gabaritadas e vencedoras do Oscar, terem sido descartadas na maturidade, sem receber oportunidade ou credibilidade. Algo que aconteceu justamente com Susan Sarandon e Jessica Lange, a primeira fica refém de papeis aquém de seu potencial e a segunda só foi lembrada por Ryan Murphy em suas antologias, do contrário ficaria refém ao mesmo modelo.

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Não demora muito tempo para perceber o quanto as duas atrizes, apesar da inimizade, têm em comum. Além do ostracismo, ambas foram consideradas as atrizes mais talentosas e belas de sua geração, justamente por isso os próprios estúdios fomentavam a rivalidade entre as duas, como se não houvesse espaço para duas mulheres desse porte. Ou seja, uma só sobreviveria naquela “selva”, na decadência da outra. Além disso, a indústria exibia tudo das duas, as sugando como um parasita, influenciando no seu modo de vida, as tornando mães controversas – para não dizer ruins – e vendo o vício no álcool e tabaco como único refúgio real. No entanto, o foco aborda o contrário: a necessidade das duas se unirem para sobreviver.

[Abaixo falarei spoilers, ainda que tudo que transcorre seja fato público e histórico]

É nítido quanto a antologia de Murphy, apesar do grande espaço e destaque dado a Davis, que foi nada mais nada menos que uma oportunidade para contar um outro olhar sobre Joan Crawford, que chegou a virar escárnio após a publicação do livro de sua filha adotiva “Mamãezinha Querida”, que chegou a virar filme com Faye Dunaway no papel principal.  Longe de ser uma limpeza na “ficha” de Crawford, que plantou sua decadência, sobretudo nos seus anos finais de carreira, porém é um relato sincero e amargo de como Hollywood criou Joan Crawford ao mesmo tempo que a enterrou.

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Após a morte de Crawford, vemos um “In Memoriam” durante a cerimônia do Oscar, onde a atriz tem nenhum destaque, aparece 2 segundos junto a todos os outros falecidos do ano, levando a constatação de Davis: “Ela deu tudo que tinha para nós e o único reconhecimento que teve foram dois segundos”. É uma síntese do que era e ainda é a indústria do cinema.

Um momento forte da série foi o episódio número seis, no qual aborda o Oscar de 1963, onde Bette Davis era favorita ao prêmio de melhor atriz por Baby Jane, o seu terceiro. Diante da uma esnobada que levou na Academia e a inconformidade de ver sua rival ganhando os louros do sucesso do filme, Crawford e sua amiga, a colunista de fofocas Hedda Hopper (Judy Davis) fazem uma campanha contra Davis, com desfecho de Crawford subindo no palco recebendo o prêmio da vencedora de melhor atriz Anna Bancroft, por um Milagre de Anne Sullivan. O que parecia ser pura vaidade banal da personagem, destoa sua máxima fragilidade, para ela era melhor ver Bette no mesmo barco que ela para não se sentir sozinha, abandonada.

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E no episódio intitulado “Abandoned” ou abandonada, Crawford é literalmente abandonada por todos que estão a sua volta. Seu alcoolismo se torna prejudicial ao convívio social, ela está tentando fazer mais um filme com Davis e Aldrich anos depois de Baby Jane, Com a Maldade na Alma (1964), porém os conflitos no set de filmagens chegam nas últimas consequências, com Crawford internada por ter um surto nervoso e substituída por Olivia De Havilland. Após isso, ela nunca teria nenhum papel de destaque, sobretudo por ter sido taxada de antiprofissional.

[Fim dos Spoilers]

Tanto Jessica Lange quanto Susan Sarandon nasceram para viver suas respectivas personagens. Particularmente achei os três primeiros episódios da série, os que se passam diretamente durante os bastidores de Baby Jane, os grandes momentos de Sarandon como Davis, ela brilhou de forma celestial. Já Jessica Lange começou a tomar conta da série justamente no episódio seis, onde finalmente nos colocamos no lugar de Crawford, sobretudo ao ser questionada que seria superior àquele papel que estava prestando – no caso de sabotar Davis – prontamente ela reconhece que não é, que só restou a ela aquilo.

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Alfred Molina, Stanley Tucci, Zeta-Jones e Judy Davis (Uma exclamação para essa!) desempenham seus personagens com grande personalismo, ainda que a série seja das duas lendárias atrizes, os três conseguem dar alguma profundidade para os respectivos figurões que abordam. Meu destaque pessoal fica pra Judy Davis, uma atriz constantemente subestimada, fazendo uma Hedda Hopper que tinha tudo para ser um alívio cômico caricato, entretanto percebe-se a dor interna dela por nunca ter tido oportunidade de ser atriz, justamente por isso fez a vida arruinando a vida de outras.

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Feud: Bette and Joan ainda serve como uma ode ao cinema clássico, são tantas referências que facilmente dá para se perder, diferentemente da aparência, é uma homenagem melancólica, por retratar uma Hollywood tão cruel intimamente. Além disso, é uma antologia que não endeusa suas personagens, por mais “divas” que elas sejam, mas tenta traze-las como humanas normais que vivem com essa “divindade” como responsabilidade, algo que não fácil, principalmente em meio a decadência. Independentemente de quem foram Joan Crawford e Bette Davis, e os motivos de sua rivalidade, ambas foram massa de manobra daquele meio e mereciam um final redentor, ao qual Ryan Murphy finalmente as deu.

Nada mais do que justo, as duas que escolheram fazer pelo caminho difícil.

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About The Author

Editor e Crítico de Cinema

Estudante, questionador, indeciso e idealista. Amante da Sétima Arte, acredita que a cultura e a educação são os principais instrumentos de transformação social. Apaixonado pelo Brasil em toda sua plenitude e cores. Fã incondicional do grande gênio Woody Allen: "A liberdade é o oxigênio da alma".