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Homeland (6ª Temporada)

(Showtime, 2011-)

Criada por: Howard Gordon, Alex Gansa

Direção: Keith Gordon, Lesli Linka Glatter, Alex Graves, Tucker Gates, Dan Attias, Michael Klick, Seith Mann

Roteiro: Alex Gansa, Ted Mann, Chip Johannessen, Ron Nyswaner, Patrick Harbinson, Charlotte Stoudt, Evan Wright

Elenco: Claire Danes, Rupert Friend, Elizabeth Marvel, F. Murray Abraham, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Hill Harper, Shaun Toub, J. Mallory McCree, Jake Weber, Nina Hoss

Número de Episódios: 12 episódios

Data de Exibição: 15 de Janeiro a 09 de Abril de 2017

Homeland 02

O texto contém spoilers.

O mundo sofreu drásticas mudanças enquanto Homeland tirou um ano sabático de folga em seu período de exibição, tendo retornado para esta sua sexta temporada mais de um ano após o fim da quinta, exibida em 2015. Logo de cara já fica bastante óbvio que os roteiristas tinham em mente como certa a vitória de Hillary Clinton nas eleições presidenciais norte-americanas ano passado. Vale notar que, provavelmente, os episódios foram escritos muito antes do resultado final, ou qualquer prévia deste, com roteiros preliminares devendo ser entregues ainda no primeiro semestre. As filmagens então, devem ter ocorrido em algum período do segundo semestre, o que ajudou a influenciar em algumas possíveis mudanças, mais levianas. Tanto que a Rússia não ter feito parte das conspirações eleitorais nesta temporada deve ser algo a ser explorado no sétimo ano da série –Homeland já estava renovada há algum tempo até a oitava temporada. O que torna ainda mais evidente os rumos escolhidos para a parte final do último episódio, do qual sequer dispenso a possibilidade de terem submetido a uma refilmagem. Dado o título America First, que era um dos slogans da campanha de Donald Trump, o episódio final atesta a genialidade da temporada de Homeland, que culmina no emblemático plano que ilustra minha crítica, quando Carrie (Claire Danes) encara uma nova ameaça.

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Ainda assim, é difícil de acreditar que Homeland não tenha sido escrita e filmada às pressas, acompanhando os noticiários diários com os assuntos que se tornam manchetes ultimamente. A apropriação do termo de notícias falsas é aqui explorado praticamente de outro ponto vista. Ao longo da temporada somos apresentados aos Sock Puppets mantidos pelo próprio governo norte-americano. Só que, por se tratar de uma ficção, Homeland tem a oportunidade de contornar a realidade dentro de seu próprio espectro de credibilidade, ainda que refletindo duramente a realidade atual na qual nos encontramos. Há um diálogo que parece bastante singelo entre Carrie e Dar Adal (F. Murray Abraham), mas que exerce uma importância inestimável tanto para a temporada quanto para a própria realidade do que vivemos. Quando mesmo os fatos de políticas externas poderem ser facilmente manipulados na sua fonte por agentes e seus interesses particulares, quem dirá então na parte mais frágil, que é quando o conteúdo da informação é entregue ao público já todo formatado. Se Carrie está congelada no tempo, Homeland nos leva a questionar o nosso estado em meio a isso, em meio ao fluxo de algo que, talvez, jamais saberemos por inteiro.

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Não somente informações são manipuladas, como sempre, mas agora também é amplamente difundido, e igualmente ignorado, a manufatura de informações falsas, cuja fluxo também é manipulado com discursos inflamatórios e, nem sempre, verídicos. É verdade que Homeland não se aprofunda tanto nestes quesitos, indo a fundo na difusão de informações falsas e seu impacto no público, mas os roteiristas exploram essa questão no próprio controle que o governo tenta exercer sobre as vidas alheias. A situação envolvendo o personagem Sekou Bah, interpretado por um ótimo J. Mallory McCree, pode ter sofrido mudanças em seu rumo devido as escolhas dos roteiristas, contudo, a própria manipulação dos agentes do FBI no recrutamento, e falsa conversão, de possíveis ameaças terroristas, auxiliam na disseminação tanto de falsas informações como do medo e xenofobia que estas alimentam. Homeland transita com demasiada sensibilidade sobre as temáticas, e a forma como flui entre elas é bastante natural, tanto que, conforme a grande narrativa da temporada vai se desenvolvendo, sentimos a mudança ser simbiótica. Ainda há ali algum dos vícios narrativos que fadou a série aos rumos drásticos tomados na terceira temporada, mas há também a consciência sobre essa situação, onde a série se utiliza do seu passado, aos poucos, para potencializar a dramaticidade que envolve seus personagens.

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Claire Danes está naquela que é provavelmente sua melhor forma na série desde o final da segunda temporada. Mesmo que em nenhum ano de Homeland se possa fazer críticas quanto a atuação dela, aqui ela parece superar aos seus próprios limites e, uma vez mais, a utilização da filha de Carrie como uma ferramenta fundamental para moldar as atitudes da personagem impulsionam a atriz a explorar ainda mais nuances. O próprio equilíbrio que a personagem busca em sua vida é o que Claire Danes parece buscar para delinear sua personagem. Então há certa ambiguidade em seu desenvolvimento, ainda mais quando o Peter Quinn de Rupert Friend entra em cena. É fato que seu final merecia o só comentado memorial, até pela temporada que o ator desempenhou, em seu melhor trabalho na série desde o único ano em quem foi indicado ao Emmy pela interpretação do personagem. Muito desta temporada de Homeland recaí sobre os ombros de ambos atores, e a dupla Claire Danes e Rupert Friend não decepciona. Aliás, eles acabam tendo seu trabalho bastante exaltado pelo ótimo trabalho de direção realizado na temporada. A exemplo da frieza de Lesli Linka Glatter na execução do momento que culmina no momento fatal que sela o destino da Astrid de Nina Hoss (O Homem Mais Procurado).

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Contudo, quem desponta como o grande nome da temporada é outra pessoa, infelizmente não sendo desta vez a presidente eleita interpretada por Elizabeth Marvel (House of Cards), que têm alguns bons momentos, mas ainda carece de mais cenas complexas em termos dramáticos. Elemento que há de sobra para o Dar Adal de F. Murray Abraham. Não somente a atuação do veterano, vencedor do Oscar de Melhor Ator, é acima da média que ele próprio vinha apresentando em anos anteriores, mas a dualidade desenvolvida em seu espaço de coadjuvante, elaborada num jogo em meio a grandes nomes da comunidade de inteligência norte-americana, como o mais uma vez ótimo Saul Berenson de Mandy Patinkin, cresce como o grande vilão e manipulador da temporada, numa amarga derrocada. Há pequenos detalhes do ator em suas cenas que fazem toda a diferença. Homeland aproveita essa ambiguidade do personagem, a exemplo da aparentemente singela cena que citei, onde ele se encontra com a protagonista da série. A maneira com a qual os roteiristas conseguem encaixar o personagem e tramas paralelas a ele em conjunto é um dos grandes acertos da temporada. Característica esta que sintetiza de maneira bastante certeira a competência desta sexta temporada de Homeland, numa narrativa que supera menores deslizes e ruma, recheada de um suspense muito bem construído, para caminhos que não somente satisfazem, mas conseguem intrigar ao mesmo tempo que geram uma excelente reflexão, nos deixando ansiosos pelos próximos passos de Carrie e companhia.

About The Author

Especialista em Cinema, Tecnólogo em Produção Multimídia e Técnico de Produção em Áudio e Vídeo. Cinéfilo desde que se conhece por gente, teve o sonho frustrado de ser cineasta e, agora, abre mão da vida social para se dedicar às séries e filmes.