Estamos acompanhando a 70º edição de Cannes, que além da repercussão entre Cinema x Netflix, polêmica iniciada por Pedro Almodóvar e Will Smith, podemos relembrar que há um ano atrás, em 17 de maio de 2016, o elenco de AQUARIUS protestou contra Michel Temer no Festival de Cannes.

Brasil-Resistiremos-democracia-proclamaban-mostraron_LPRIMA20160517_0113_34

O filme já estreou, foi sucesso, e por que diabos estamos falando de AQUARIUS de novo? 🤔

Simples: a obra de Kleber Mendonça Filho e com atuação soberba de Sônia Braga reflete justamente o sentimento necessário para todxs brasileirxs a partir de agora: RESISTÊNCIA.

Independente dos seus ideais políticos e partidários, uma coisa é certa, estamos vivenciando um governo que opera na linha do capital e poder, e pouco (ou nada) está interessado com o nosso trabalho (taxa de desemprego continua a subir), com a educação, saúde, não querem lidar com a obrigação dos direitos básicos necessários de vida do sujeito. O Governo/Estado seria como Cersei Lannister tentando operar o poder dos Sete Reinos, mas sem legitimidade. Apenas a força, ou explosão rs.

cersei-vinho

Nesse tempo que acompanho cinema, fui observando e aprendendo uma coisa, a importância de acompanhar a construção da obra de um diretor. Apesar dos vários filmes que diretoras e diretores vão produzindo durante os anos, quando fazemos 0 resgaste=maratonas de todas as obras, conseguimos entender a entrega de uma diretora e diretor. Podemos ver isso em Quentin Tarantino, Alfred Hitckook, Ava Duvernay, e claro nosso grande Kleber Mendonça Filho.

AQUARIUS é segundo longa metragem do diretor, primeiro é o poético O SOM AO REDOR, Kleber que também assina alguns curtas como Recife Frio, Eletrodoméstica. E em breve poderemos ver o terceiro longa metragem: BACURAU.

Kleber nos convida para 3 funções em AQUARIUS:

– Observador ( a narrativa é apresentada através dos detalhes: a música, o toque, o mar, olhar, o cabelo de Clara);

– Criador (essa criação vem do momento em que algo nos incomoda, e precisamos projetar uma catarse da nossa experiência e começar a movimentar em busca de algo, aquilo que nos falta)

– E ele deixa um último convite em sermos CRÍTICO, nome inclusive de um curta dele: ser crítico é estarmos antenados e atentos para os fenômenos sociais, políticos, históricos, humanos da nossa sociedade.

Quis falar rapidamente sobre essas 3 funções em Aquarius, pois é importante para nós, como telespectadores termos como um plano de fundo, eventos reais que estão acontecendo na nossa cidade/País.

obs: E se Ministério da Cultura não tivesse boicotado o filme, certamente teria sido indicado ao Oscar, e com reais chances de ganhar, mas enfim, o jogo segue….

Ultimamente, tenho pensando muito, a importância do cinema como uma ferramenta fundamental e necessária de informação, de quebra dos estereótipos, um momento de trazer assuntos proibidos em nossa sociedade machista e representatividades, hoje mais do que nunca, isso se torna vital dentro de um mundo doente, de 2016 vimos filme como Estrelas Além do Tempo, Moonlight, 13º Emenda, e Aquarius. E hoje com o poder na Netflix e torrent, as séries também estão sendo convidadas a responder essa função social, vimos séries como os 13º Porques, Cara Gente Branca, Sense8.

A Clara então chega para nós em 2016 dentro um cenário nacional, e mundial, muito caótico. Onde, pelo menos eu observo, vai além de saber em quem vamos votar, em saber onde vamos trabalhar, vai além de instituições. O problema que observo é as relações entre as pessoas. Falta de paciência, o distanciamento entre nós, apenas se importar com o próprio umbigo, isso é preocupante, porque a partir do momento que o nosso wifi humano cai, a sensibilidade e a ética estarão em queda. E chegamos ao momento em que vemos as notícias, e nos deparamos com dados que Brasil é o país que mais mata negros e LGBT, um país que pessoas trans e travestis estão em perigo. Números de violência contra mulher estão assustadores, medicalização de crianças e adultos como a única solução ao caminho da felicidade, a relação entre pais e filhos, patrão e empregados, solidão, racismo, políticos em Brasília fazendo o que querem com nossos direitos. Resumindo: todo o cenário que estamos vivenciando, começou quando deixamos de ser sujeitos, a passamos a nos comportar uns com os outros como objetos.

Todas as questões têm a ver com Aquarius. Porque Aquarius é um filme de resistência. Como Tia Lúcia, que enfrentou a ditadura e a revolução sexual da mulher, Clara mostra sua fúria e resistência perante as feridas que vão sendo expostas na sua vida.

Um filme diagnóstico, no sentido de expor os problemas sociais que temos no Brasil, como Tatugem, de Hilton Lacerda, Central do Brasil, de Walter Sales e Que Horas Ela Volta?,de Ana Muylaert.

Edifício “Aquarius” é carregado das memórias, por isso é o chão de Clara. Acredito que além de ser um filme resistente, também tem uma simbologia da saída do mal estar da civilização pela via do amor. E o amor que ele nos mostra é aquele que transborda quando, por exemplo, olhamos nossos álbuns antigos de fotografias.

Um filme marcado pela transmissão simbólica, que vimos desde o início polêmico do filme no festival em Cannes, onde atrizes, atores, diretor denunciaram o encaminhamento do Golpe no País, até a última tomada do filme, um final subjetivo, onde aparece a canção (que também inicia o filme) de Taiguara chamada “Hoje” “Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu tempo”.

 

Ah, e dando retorno sobre o FEUD: Pedro vs Netflix, parece o barraco chega ao fim:

18557498_1367011553384201_4900716719931637644_n

via Dias de Cinefilia

 

 

About The Author

Psicóloga. Membra do CEPP- Centro de Estudo e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço. Coordenadora do GT Gênero e Diversidade. Colunista no quadro "Papo de Cinema" do jornal J.BILT. Acredita no poder da arte cinematográfica como função social na sociedade contemporânea.